19 de agosto de 2014

Redenção



Ela acordou sobressaltada. Sentia os pingos de suor em sua testa, pescoço e colo. Estava ensopada, e a respiração falhava. Sentou-se na beirada da cama e passou as mãos pela pele molhada. Suas mãos tremiam.

Não havia sido um pesadelo. Mas um sonho erótico.

Tantas mãos, masculinas, apalpando-a por toda a superfície de seu corpo. Às vezes, faziam-na gritar de dor. Outras, de um certo prazer mórbido, estranho. Enervante. Era tudo escuro, preto e branco, como num filme noir de categoria B.

E ela detestava filmes noir.

Deitou-se novamente, sentindo-se grudenta e fedida. Não se permitia prazeres tamanhos enquanto acordada, quem diria dormindo! Tantas mãos...

Ela esfregou seu rosto, depois o pescoço com vivacidade, e depois o colo, o peito, a barriga e a virilha. Não queria vestígios daquelas mãos sem dono, pegando-a não se sabe onde, nem mesmo quando ou porquê. Esfregava-se como quem tira mancha de uma roupa imunda, até esgarçá-la nas bordas.

Esfregou-se, esfregou-se, esfregou-se...

E sentiu a perda do rumo, do prumo e do pudor. Do suor, chegou ao líquido sagrado, alvo e sacro, mais pura prova de amor próprio. Tremeu as entranhas frente à libertação do mal. Havia pecado.

Mas se redimiu.

Imagem de Craig Tracy


Por Bia de SouZa

18 de agosto de 2014

A cada haver



Há cada forma de poetizar o mundo...
Entre laços coloridos, bolas de algodão
Nuvens disformes num céu azul turquesa.

Uma palavra doce, um beijo cheio de terceiras intenções
Um passeio a céu aberto
Noite de luar azul.

Passos entre amigos
Professores
Vizinhos
Chuva gotejante e um arrepio frio ao sol nascente.

A cada piscar, virar, falar, correr e ficar.
Xingamentos leves de nervos luxuriantes.
Descontrolar-se num equilíbrio só.
A cada um.
Nós.

Passagem de tempo.
A cada forma disforme.
Há cada uma delas.









A cada haver
Há cadáver de pó!
De tristeza e melancolia
Deixando, sós,
Sóis fulgurantes!
Purpurinantemente 
Amor
Papel
E Poesia.




Por Bia de SouZa
Imagem:

Quero uma mulher pra chamar de minha

Quero uma mulher
Pra chamar 
De minha
Minha menina
Minha amiga
Minhas noites
Meus porres
E talvez até
De minha vida
Para praticar comigo
Um pouco do seu sadismo
Sem deixar de lado
Cada romantismo meu
Coberto de lamúrias
Quero uma mulher
Que mostre a benção
De gozar
Que seja meus vícios
Meu pó
Meu cigarro
E meu leite
Uma mulher dessas
Que só encontro na minha mente
Meio esquizofrênica
E cheia de pecados
Quero uma mulher
Inexistente

Júlia Angardi

16 de agosto de 2014

Homem De Lata



A dúvida que a fé desperta
O ódio alimentado pelo medo
O frio de uma porta aberta
A tendência suicida de um segredo

A falta de ar nas alturas
A artificialidade do sabor
O leão que não tem bravura
Nada disso se compara ao amor

Que é a metamorfose dos sentimentos
Desejo por obsessão
Abraço carinhoso por sufocamento
Num 'para sempre' de traição

Se a vida é incerta em sua beleza
Poucos a compreenderão
Mas num poço lacrimal flutua uma certeza:
O amor não tem coração

25 de julho de 2014

Veias Abertas



O mundo não se acaba
É panela sem tampa
Horizonte infinito
Que atrai olhares sonhadores
De pernas tão curtas
Como uma mentira mal contada
Mas de sedentos olhos alados

O vento aponta a direção
Nuvens cantam e me encantam
Já não sinto o calor do chão
O chão sou eu, onipresente
Na vibração do pneu
Na turbulência do avião
Na maresia em alto mar
Me misturo
E me enjôo quando paro
Sem o vento na cara
Sem destino
Ao sabor do acaso

Me soltar é me prender
A esse maravilhoso caos
O qual nunca desvendarei por completo
Bem como nunca desistirei de tentar
Pois conhecendo o ar que respiro
Sinto melhor o pulmão que inspira
Conhecendo o mar que navego
Posso construir um barco melhor
Conhecendo essas veias abertas
Posso consertar o que salta no peito
O motor que tira meus pés do chão
Por amor

11 de julho de 2014

Um motel e um dez



Quero te levar em um motel
Engolir a chave
Passar calote
Te trancar entre meus braços
Tingir teus cabelos
De negros
Recitar Wilde
Lembrar Leminski
Pensando em Sartre
Te dar um dez
Jogar na banheiro
Todo meu tesão
Encharcar de doçuras
Teu semblante
Mostrar minha força
Gozar ao mesmo tempo
Com você





Júlia Angardi

10 de julho de 2014

Nunca nenhuma mulher me quis








Nunca nenhuma mulher me quis

Não sei se é pela ingenuidade

Ou pela minha baixa estatura

Fragilidade

Talvez

Por não ter nascido com os olhos verdes

De vovó

Por não falar francês
Ainda
Por não viajar com os amigos
De mochilão
Por sofrer por um quase amor
Por não saber a diferença
Entre um hoje
E um amanhã
Por feder a cigarro
Por não ter religião
Por não ter cor de caixa de papelão
Por preferir cinema a baladas
Regadas
Com gente chata
E cerveja ruim
Por ser babaca depois das 4 da manhã
Por trepar mal
Ou apenas
Não trepar
Nunca nenhuma mulher me quis
No Rio
Ou em Paris
Em Buenos Aires
Só para dançar tango
Nunca nenhuma mulher
Me quis
Mas os meus poemas
Elas querem ouvir
Sempre quiseram