12 de agosto de 2013

Bonequinha de Luxo



A poltrona estava afundando. Sempre afundava mais para a esquerda do que para a direita. Com os pés descalços sobre o estofado, ela balançava o corpo suavemente, num ritmo constante e monótono. Sempre balançava assim.


Betânia se achava aninhada em seus braços. Bonequinha ruiva, olhinhos pequenos, um azul, outro preto. De caneta Bic. Era uma bonequinha boa, ela dizia. Cheia de vontades que só, mas boa. Obedecia depois de três insistências. Sempre após a terceira.

Ela, hoje, estava mais quieta. Olhava Betânia de soslaio, meio receosa. Balançava-se suave, e olhava para o outro lado. Para o mundo. Ela o via, com olhos curiosamente entediados. Sempre entediados.
Mas nunca viam o mundo.

Demorou instantes eternos para retornar à Betânia. O balanço do corpo se fazia constante, enquanto ela acariciava de leve os cabelinhos cor de fogo da bonequinha. Sempre tão lindos.

Num só movimento, a cabecinha de Betânia rolou pelo chão, parando apenas ao encontrar a parede oposta à poltrona. Ela olhou-a sem tempo, como se pensasse em pegá-la de volta, e tornou a encarar o mundo. Um corpo sem cabeça era muito chato.

Sempre soube disso.

Mark Ryden




9 de agosto de 2013

8

Por Bia de SouZa

Despretensiosamente, cheio significante
Proporcionalmente 
Perfeito
Oito sendo
Elegante
Verticalmente, apenas número
Matemático, exato
Frisante
Horizontalmente
Infinito
Óculos bonito!
Metáfora pura num simples 
Rompante
Oito ou oitenta
Opostos intenta
Criando afugenta
O tédio chinfrim
E de forma tão clara
Bonita e poética
Marca para sempre
Um pedaço de mim.

8 de agosto de 2013

A tal da poesia

por Jéfferson Veloso.


Poesia é musica
e as mãos chamam
as palavras para dançar
Poesia é pintura
onde os olhos param para ver
É sonho
de quem não tem medo de sonhar.


Poesia é mudança
tal qual de tempo em tempo
ou às vezes reepentina
A tragédia se torna esperança
Da paz vai à selvageria
Da união gera a vingança
Do inferno à calmaria.

Poesia é pista
onde o leitor
aposta corrida
nas curvas de
cada verso.
Uma pequena leitura
para o homem
Um grande passo
para o universo.

Poesia é vento
e suas palavras
fora penduradas
num varal de versos
pelos autores
É mal humor controverso
União de amores e temores.

Poesia é tesão
o sexo com a melodia
gerando a mais bela canção.
Gera jazz
Gera rock
Gera forró
Gera hip hop
Gera blues
Gera disco
Gera soul
Gera Chico* (viva Chico!)

Poesia é encontro
Autor, leitor
Leitor, autor
Prazer em ler
Prazer em escrever
Prazer em conhecer.



*Chico Buarque

7 de agosto de 2013

Orgulho e Preconceito








Encontrei uma mulher, uma das mais fortes que já vi, e também uma das mais orgulhosas.
 

Encontrei uma mulher, e no seu caminho havia um muro invisível que, sem perceber, ela mesma construía, tijolo por tijolo, como se nunca fosse parar, como se quisesse se esconder.



E de fato se escondeu do mundo, porém não se escondeu de mim.


Encontrei um belo sorriso, um dos mais belos e contagiantes sorrisos que já vi.
Sorriso borrado e engasgado, como tantos outros, por lágrimas de um mundo doentio e absurdo...

Encontrei uma mulher, e me encontraram em seu caminho.
Me descobriram, construtor. Construtor de utopias, sorrisos e indagações.
Me descobriram, demolidor.
Demolidor de Muros,
Medos,
Orgulho e Preconceito.





Por: Rafael Mota.
Para: Glenda Marques.

5 de agosto de 2013

Por quê?

Por Bia de SouZa


Sinto-me triste. A cada pensamento, vejo-me circundada por um sentimento sufocante, uma angústia sem fim, que aperta meu peito e me deixa vazia.
Vazia de todas as possibilidades de bons pensamentos, de boas lembranças, de bons sonhos que me levariam ao futuro e me fariam feliz. Contrariando, sou puxada ao passado, ao obscuro pretérito da alma, onde nada pode ser mudado, onde tudo permanece sendo como é.

Triste.

 Estou cheia. De uma camada de piche, grudenta e pesada, sem uma pá decente para retirá-la, completamente enterrada num mar de dor. Um mar de mentiras, ilusões e desacertos, também repleto de inocência, como peixinhos que nadam sem saber da presença do predador.

Essa tristeza me afoga. No meu próprio emaranhado de lágrimas, jorradas de olhos tão tristes, criam uma maré infinita e sem fuga. Que me puxa, sempre, sempre para longe, para o meio do redemoinho de pesadelos criados por própria autoria.

Incessantemente.

E nesse complexo marítimo tão cheio de vazios é que nado sem rumo, sem força, sem esperança, perguntando-me a cada gole de água engasgada o por quê de não saber nadar contra a maré.

1 de agosto de 2013

El Sol No Brilla, Y Ya No Existe


Era frio o deserto,
Frio e nebuloso,
E uma flor se escondia.

Era única aquela flor,
Única e radiante,
Porém ninguém percebia.

Era azul a escuridão.
Um azul em desespero,
Mas seus gritos eram mudos.

É aqui, doce deserto.
E governados pelo vento do acaso,
Cada ser é um grão de areia.

Eran rojos tus labios,
Rojos de sangre,
Sangre mio y sangre tuyo.
Sangre que brota de mis ojos,
Sangre que nace de tus pétalos,
Mi hermosa flor.

Sangre que seca al desierto
Cuando te arrancas tu piel.
E mi alma se va junto
Cuando los fantasmas susurran
Que se cayeron los pétalos,
Que se secaron los labios...
Que se ha ido Paloma, mi flor.

Ilúdito

por Jéfferson Veloso



Os tempos estão negros
A luz que me dava energia
voltou-se contra mim
Transformou minhas ações
em meros descasos e afins
E do nada a luz age assim
Se é sim  fala que 'não'
Se é não fala que 'sim'
Me fez sentir culpado
me fez sentir pequeno
Com a ilusão da sua segurança
me fez sentir sereno
Fez-me não sentir nada
Trancou-me no calabouço
E se desfez da maldita entrada

Ficar trancado em si mesmo
é o pior castigo que existe.
Ser escravo da vontade
que a dor da morte antes eu sentisse
Mas nada faria sentido
Se esse dia não existisse.

Foi dentro de minha prisão
que eu descobri
que minha liberdade
era uma doce ilusão

E tudo foi apenas num certo dia.

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Certo dia a gente acorda
com vontade de morrer
Certo dia a gente sonha
sem mesmo saber o por quê
Certo dia, a gente vive
E nem isso a gente vê

O vento leva o que a brisa quer deixar
O sol ilumina o que a nuvem quer  escurecer
E a metamorfose contínua
Mata quem quer
Vangloria quem sobra
E a sobra paga o preço
pior de quem morreu
Vivendo na sina
vida que cega
vida que mata
vista que falha.

Vivemos de sonhos
mas o sono está acabando.
O que fazer?
Olhar para o reflexo
inconsciente da alma
e ver que ela tinha
muito a oferecer?
Não,
o melhor é não se arrepender.

Só sei que nada sei
mas consigo tomar a peito
toda essa falta de respeito
da parte da história
daquela pequena pequena trajetória
que apenas ignorei

O Sol se põe mas seu trabalho continua
Ele se esconde na parte de trás da Lua
fazendo assim, da luz do luar
uma moradia perfeita para meu jeito de pensar.

Se houver alguma dúvida, pergunte ao eclipse.
Ele saberá te responder.