21 de agosto de 2015

Permanências


Sinto saudades. 
Do pouco, do quase nada,
 mas dum turbilhão de sentimentos que adentrou em meu peito.
 Do enorme sorriso, dos cabelos longos e sedosos, 
da boca carnuda que me fez olhar e nada mais ver.

Saudades da voz, do jeito tímido, da risada larga 
e dos planos mais mirabolantes.
 Planos de um futuro muito distante... 
entremeado pelo presente, que mudou tudo
 e agora eu nada mais sei.

Apaixonei-me no presente e já te amava no futuro. 
Amor platônico, romântico e verdadeiro. 
Paixão avassaladora, concreta e tão cheia de mim. 
Sentimentos tão próximos e em mim opostos por um espaço de tempo 
que sequer existe.
 Confundem-me na incerteza de sentir os dois 
e não me encaixar em nenhum.

E se a paixão vira amor?
 E se o amor me apaixona? 
Mais fácil seria se eu permanecesse 
na imprecisa precisão 
de não me sentimentalizar. 

Mas o que posso fazer, 
se sou um ser amador
 nessa arte tão incerta de gostar?


Imagem "Denise Cardoso", retirada de:
http://www.radiojovemhits.com.br/blog/index.php?pg=home&funcao=detalhes&id=4&id_tex=690



Por Bia de SouZa

17 de agosto de 2015

Ágape





O seu mundo
Onde respiro
É insano
E intenso
É fantasia
Doce ilusão
É límpido
Libido

No seu mundo
Onde habito
Eu mergulho
Eu flutuo
Me orgulho
Me afogo
Então me alegro

O seu mundo
É o meu mundo
O meu corpo

Minha mente
Minha alma
Coração
E suas forças de atração

Agora
Que as estrelas se alinharam
Que as estradas se cruzaram
E vice versa

Os seus rios
Meus risos
E vice versa

O seu mundo
E o meu mundo
É o nosso

Um
E dois

Simples de Coração, 1995 (Eng. do Hawaii)

Otimismo

Por Jefferson Veloso




É muita gente de bem sem ter o que fazer
Somando migalhas para se ter o poder
Eu vejo essa gente espalhando suas crenças
Para cada vez mais assumir suas diferenças

Não vamos caminhar juntos por enquanto
Pois não se tem respeito onde há ódio
Deixar para lá é a forma de protesto
De quem está cansado de não ver mudança

Violência evoluída
Inventam novas palavras
Escrevem novas histórias
Equipando melhores armas
Obtendo mais vitórias
Deixando feridas expostas
Terror guardado em memória
Rezando paro passado duro
Serem apenas lágrimas
Na mente de quem chora

Esperamos sim, uma nova vida
Um tempo novo de grande fartura
 Fazendo ao coração a seguinte pergunta:
Até onde eu vou com essa sua batida?

Ser feliz. E não ter a vergonha de viver.

3 de agosto de 2015

O anjo


O ônibus já estava atrasado há 17 minutos e trinta e seis segundos. Trinta e sete. Não que eu fosse alguém com TOC e contasse minutos e segundos das coisas, mas havia um relógio de rua bem à minha frente, o que me permitia a regalia de contar até mesmo os milésimos, se quisesse.

Durante os dez primeiros minutos de atraso, estava irritado. Não havia espaço suficiente no banco para a espera e eu tive que me contentar em me apoiar no poste. Essa deveria ser uma prática proibida pela vigilância sanitária, aliás. Refiro-me a deixar os postes sem uma linha de proteção que evite o contato. Na grande maioria das vezes, estão repletos de melecas, catarros, chicletes ou outras gosmas de procedência incerta e que você só percebe a existência quando elas passam a incrementar a sua vestimenta. Isso porque nem é muito preciso falar sobre o cheiro de urina velha, canina, humana, ou sabe-se lá de onde, que transforma o mastro em banheiro público. São tantos inconvenientes que às vezes seria mais fácil proibirem os postes. Aquele, contudo, estava razoavelmente limpo, então esperei.

Já fazia quase cinco minutos que eu consegui um lugar para me sentar no ponto de ônibus, o que me fez relaxar quanto à demora. Não adiantava me irritar, xingar mentalmente o motorista, a mãe dele ou até mesmo aquele passageiro irritante que provavelmente ficou discutindo com o cobrador sobre o aumento da tarifa, alegando não saber da mudança e se recusando a pagar o novo preço e, via de consequência, atrasando a saída do ônibus. O único movimento que eu podia fazer era ficar quieto, talvez pegar o livro dentro da mochila e aguardar meu transporte.

Na verdade, eu não tinha pressa em voltar. Tudo o que eu queria era prolongar ao máximo  minha chegada em casa. Perguntas e mais perguntas, gritos, desconfianças, intrigas e insinuações eram uma constância tão irritante que aos poucos vinham se tornando como um pernilongo em dia de verão. Era inverno, mas o inferno em casa era tão forte que eu sentia o calor há quilômetros de distância.

O relógio anunciou 19 minutos e dois segundos de atraso quando o ônibus finalmente chegou. Levantei-me depressa e por uma questão de reflexo não trombei com uma moça que subia as escadas. Balbuciei um pedido de desculpas e ela retrucou com um ligeiro sorriso uma resposta.

Dentro do ônibus, contei sete pessoas, incluindo cobrador e motorista, e eles todos pareciam estar conversando sobre um mesmo assunto. Deduzi que fosse algo relacionado ao passageiro chato que brigou com o cobrador e desejei que algum dos presentes o tivesse mandado lá pra casa. 

Ri desse pensamento sórdido e me sentei. Estava cansado. Puxava de dentro da mochila meu A vida como ela é, quando notei que ela sentava ao meu lado. A moça em quem quase trombei.

Ela notou meu livro e perguntou:

- Já leu algum dos contos?

- Alguns - eu disse, olhando-a atentamente pela primeira vez. Tinha os olhos castanhos, amendoados, e um pouco de sardas no nariz - Estou estudando opções para uma montagem.

- Ah! É ator?

- Diretor. E roteirista.

Ela sorriu, um sorriso bem mais sincero que aquele primeiro.

- Sou atriz. E gosto muito de Nelson Rodrigues.

- Acho que é meio impossível não gostar - eu disse, pensando no que me esperava lá em casa - Ele transforma a realidade da ficção em uma fição bem próxima da realidade. Para mim, bem convincente.

- É engraçado como me sinto bem com suas insinuações e provocações, sem muitos rodeios. Me sinto bem viva ao fazer alguma das suas personagens!

Pensei que fôssemos conversar mais sobre nosso mundo artístico em comum, mas ela simplesmente puxou os fones de ouvido e eu entendi o recado. Não me importei muito. Acho que, no fundo, eu continuaria o papo por mero respeito e ligeiro remorso de a ter quase jogado no chão.

Tornei a guardar o livro na mochila e fechei os olhos. Minhas pálpebras doíam a cada solavanco que o ônibus dava. Eu gostava de andar de ônibus. Não gostava era dos buracos.

Devo ter adormecido por um tempo razoável, ou foi o que senti, pois acordei sobressaltado e dei de cara com aqueles olhos amendoados, a menos distância de mim do que jamais estive de uma desconhecida.

- Desculpe se te assustei! - ela disse, se afastando abruptamente - É que por um momento me senti tentada a tocar sua cicatriz. Que bobagem!

Meus dedos instintivamente tocaram a minha bochecha, onde havia um pequeno corte, agora quase imperceptível. Já fazia muito tempo, mas as lembranças eram mais marcantes do que a própria cicatriz.

- Não, não se preocupe. Só me assustei com medo de ter perdido o ponto.

Ela concordou, meio envergonhada, e olhou para frente. Fiz o mesmo, mas sentindo o calor ofegante e encabulado que emanava do corpo dela. Tornei a me virar para seu lado e perguntei:

- Você está em cartaz?

Ele tornou a me olhar, parecendo feliz por eu não ter estendido o assunto da cicatriz.

- Sim! Estou apresentando uma peça no Teatro do Parque Municipal. Escrevi o roteiro. Eu e meu noivo.

- Certo, me passe os dados. Gostaria de assistir.

Trocamos informações e contatos e conversamos algumas banalidades depois. Ela tinha muitos conhecimentos sobre teóricos e críticos teatrais, alguns cinematográficos, e senti que poderíamos conversar por horas a fio. Por sua desenvoltura nos assuntos, imaginei que seria realmente uma boa atriz.

O ônibus parou e notei ser o meu ponto. Havia chegado muito mais depressa do que eu queria, agora por mais um motivo.

Despedi-me dela rapidamente e desci do ônibus, tomando no rosto um vento gelado e cortante. Toquei instintivamente a cicatriz e lembrei-me dos olhos dela, tão colados em mim que poderiam me beijar com os cílios, se quisessem. Não questionei o que a fez querer tocar meu rosto, ou se essa realmente era a verdade por trás da sua aproximação. Apenas guardei para mim o momento.

Voltando para casa, a passos lentos e quase de caranguejo, não pude deixar de pensar que, de forma mais realista e concreta, ela foi a minha dama do lotação.

Imagem: http://camilead.files.wordpress.com/2010/06/rua.jpg

29 de julho de 2015

Àqueles dias

Por Jefferson Veloso






     Tem dias que a gente pensa que não sabe amar. Aqueles dias em que um encontro no cinema, assistindo ao primeiro filme que veem na sala de cartazes, fazendo a caminhada toda para que, de pouco a pouco os lábios se encontrem, fazem parte apenas da imaginação.
     
     Tem também os dias em que você foge do olhar do outro, como medo da violência ou da rejeição da sua verdade mais sua. Quem sabe, o olhar entregue mais verdades que a própria fala. 

    Os dias de dor são os piores. A dor maldita da perda de algo ou alguém. As dores físicas. Mentais. A dor do ego. Dor ao ter machucado alguém. Dores que ficam. Dores que vão. Cada uma fazendo sua cicatriz.
     Aí você sente medo. Medo mesmo. Mas um medo moderado.

     Pois, por mais que existam os dias em que não tenhamos entendido o significado do não-amor, do olhar e da dor, no final, ninguém quer deixar de estar vivo. E já que sobreviveu até agora, fica de boa e vai viver. E tudo ainda pode acontecer. Ou repetir.


     Pode ser que você saiba aprenda algo. Até sentir algo(mais).



25 de julho de 2015

Mais um Seu José

Por Jefferson Veloso (e por todos que fazem parte dessa caminhada)


Era só mais um Seu Zé
Numa cidade grande qualquer
Caminhando com um Seu Raimundo
Até onde dá pra ir a pé

Mais um bueiro de Ipês floridos
Neste paraíso rodeado em esgotos
Pulmões de ar que são inflados
Fotossíntese do capiroto

Procurando deus a cada esquina
Vai Seu Zé nessa maldita sina
Fazer de alguém, uma luz digna
Na escuridão densa em que ali surgia

Com as mesmas conversas de sempre
Nesses encontros de Zé e Raimundo
Onde conhecem tanta gente
Que  fazem dar graças por estar no mundo

E por aí vai.
Pior que vai.


22 de julho de 2015

Um Dos Três

          Numa quieta tarde de domingo, na primavera de 66 em Santos, debaixo de um Sol ofuscante, dona Clara, baiana sabida, mãe solteira e batalhadora, trajando um longo vestido de neve que dançava por si só, pela primeira vez levava seus filhotes à praia.
          
          Eufóricos, os garotos mal podiam se conter em imaginar quão maravilhosas seriam aquelas imagens vistas sem o filtro ocular de seus amigos mais soltos e seus vizinhos mais velhos. Queriam descobrir o que de tão espetacular havia no litoral que trouxesse toda aquela beleza da qual sempre ouviam falar mas que nunca puderam examinar, até então.
       
         Com certa dificuldade, dona Clara conseguiu conter os ânimos dos três garotos e, enfim, desceram do ônibus na marginal paralela à praia. Ao pisar na areia quente, os garotos franziam a testa por causa da claridade do reflexo do Sol, que observava de cima. Sua mãe, no entanto, não se incomodou com o ambiente, pois trajava vestimenta confortavelmente envolvente da cabeça aos pés.

          De imediato os garotos começaram a explorar o lugar, cada um pra um canto: o mais novo, logo de cara, jogou de lado as sandálias gastas e a camisa azul e se atirou de cabeça na água. A alegria com que brincava com as ondas puxava de leve os cantos da boca de sua mãe, que de longe observava atenta. O caçula era apaixonado com a profundidade do mar e, quando olhava pra cima, pensava que as estrelas que via só à noite estavam, na verdade, submersas naquele mar azul enquanto o Sol, tranquilo, se banhava. Um pouco mais velho, seu irmão do meio já estava jogado na areia, e sua camisa que antes era verde já estava camuflada com as corres da terra. Este, por sua vez, era um admirador de tudo aquilo que era vivo. Queria brincar com todos os cães que encontrava na praia, observava atento ao vento que impulsionava os pássaros e os galhos de coqueiros ali à beira. Queria entender o domínio do verde sobre os pelos da Terra. Naquele momento, para ele, foi como se não houvessem outras pessoas ali em volta. De longe e preocupada, sua mãe esboçava um grito que arranhava a garganta e enchia os pulmões, mas preferiu observar mais um pouco e seus olhos molhados brilharam ainda mais forte. Enquanto isso, o primogênito tirou sua camisa vermelha e caiu no mar. Brincou, nadou e, ao se cansar, estendeu sua camisa sobre a areia e se sentou de costas pro mundo. Sentiu a brisa na cara e observou o mar, o céu e a estreita linha que os separa. Viu seus irmãos sorrindo como nunca. Observou o Sol que gargalhava raios ondulantes, virou-se de costas ao mar e viu de novo o Sol refletindo sobre os brancos dentes de sua mãe, que botava aquele rosto sofrido pra dançar num raro sorriso.

          Depois de algumas horas de diversão, era hora de voltar pra casa. Juntos novamente, os quatro pegaram a lotação rumo à favela. Mais laranja e relaxado, o Sol aproveitava seus últimos momentos em seu banho celestial pra continuar a fotografar a família em seu caminho de volta. Pela janela do ônibus entravam poucos e pesados raios, que não tinham chances contra a cortina de dona Clara. Com uma lente turva e olhar cansado, o sol não conseguiu mais observar se os irmãos ali brigavam ou se abraçavam, nem mesmo se via um, dois ou três moleques. Era sinal de que precisava dormir. Decidiu tentar descobrir no dia seguinte.