20 de setembro de 2014
Quase Sempre, Nunca
Queria viver como ninguém
Amar como ninguém
Errar como ninguém
Mas o agora parece tarde demais
Queria sofrer, gritar
Se decepcionar
Dar socos ao vento até se esgotar
Mas o agora parece tarde demais
Ansiava sonhar, se assustar
Acordar aos gritos
Se aliviar
Mas a noite chegará tarde demais
Queria saber de tudo
Saborear cada verso
Cada som e cada prosa
Mas o apressado tempo
Sempre tarda
Queria explodir
Avermelhar o mundo inteiro com seu sangue
Adubar as mais imperfeitas raízes
Mas o relógio da bomba sempre se atrasa
Queria experimentar
Se sujar, enlouquecer
Não queria dormir
Mas já é manhã
E logo vem o sono
Queria parar o tempo e viver para sempre
Mas acabara de perceber
Que o para sempre está um passo adiante
Para sempre estará
E por mais que se corra
Ou até mesmo morra
Sempre se está atrasado
A Flor
Há lá fora uma flor amarela
Cheia de vida e encantos
Para alguns é a flor mais bela
E para outros nem tanto
Seu amante beija-flor
Derrama-se de paixão
Mas há demasiado amor
E outros amores vem e vão
As abelhas se deliciam
Joaninhas encontram abrigo
Mas o que os outros dela diziam
Nunca fez o menor sentido
Há uma vida inteira lá fora
E ela deseja vivê-la
Ela a quer agora
Certo dia sem seus amores
Para sua alegria e surpresa
Outras flores, outras cores
Exalando aroma e beleza
Mas então chegou o inverno
E, uma a uma, foram ao chão
Outras cores, mesmo inferno
Semeando a seguinte estação
Onde nasceria a flor mais bela
Outra louca flor amarela
Um, dois, um
Livros abertos
Inventam presságios Tão cheios de tudo Tão passivos de algo Cheios de respostas De perguntas inexistentes Partindo do pressuposto De ser onipresente Da mente Da minha mente Conselhos perdidos Discordâncias infames Dialética estúpida Destruiçao inconstante Sabemos o que vamos nos dizer Defeitos, belezas, caralho a quatro Corações despedaçados Quebra-cabeça de um só Absorvamos o sabor da sabedoria Em forma de bolo de mandioca Tão cheio de corpo presente Quanto vazio, sem gosto, alucinógeno.
Inventam presságios Tão cheios de tudo Tão passivos de algo Cheios de respostas De perguntas inexistentes Partindo do pressuposto De ser onipresente Da mente Da minha mente Conselhos perdidos Discordâncias infames Dialética estúpida Destruiçao inconstante Sabemos o que vamos nos dizer Defeitos, belezas, caralho a quatro Corações despedaçados Quebra-cabeça de um só Absorvamos o sabor da sabedoria Em forma de bolo de mandioca Tão cheio de corpo presente Quanto vazio, sem gosto, alucinógeno.
19 de setembro de 2014
Coração Urbano
O coração urbano
É uma árvore gigante
Atrás de uma cerca de ferro;
Embora seja grande, frondosa,
A árvore não consegue sair
De seu cárcere não natural,
Pois está presa, não só
Pelas grades de ferro,
Construídas pela cultura,
Mas também pela sua enorme raiz,
Afinal, quem chegou primeiro?
A cultura e suas grades imaginárias,
Ou a árvore frondosa
Com tuas folhas, galhos e oxigênio
Que mantém vivos os homens
Que criaram as grades de ferro?
A.P. - 19,09,14
18 de setembro de 2014
Autorretrato
Falar de mim é mentir
Como escrever um poema
Como editar uma foto
Como uma paisagem na tela
Retrata essa vida artificial
Mentir como a arte permite
Como um homem de lata
Se enche de mentiras
Como uma carta de amor
Engana a quem escreve
E beija virtualmente a quem lê
Sou meio virtual,
Virtuoso
Tentando fugir da vida real
Mentindo pro mundo
Tapando o Sol com a peneira
Mas cá estou de cara limpa
Sem maquiagem
Sem sinal na área
Corpo e mente vazios
Danificados
Sou um cego no tiroteio
A procurar pela bala perdida
Bala doce de metálico amargo
Perfura o muro da pele e se desfaz
E já não são mais meus os olhos no espelho
Exausto antes mesmo da corrida
Engano a mim mesmo pra continuar
E ao olhar pro horizonte
Enxergo sonhos distorcidos
E me contorço a apontá-los
Sabe Deus quando, parti(rei)
16 de setembro de 2014
Dois Ou Um
Nós somos crianças mimadas procurando por pessoas mais frágeis do que nós mesmos, do tipo que são fáceis de usar e descartar, mas quando nos descobrimos frágeis, procuramos pelas mesmas pessoas, que agora parecem ser grandes pilares, e então nos apoiamos novamente.
Somos crianças na tempestade procurando por abrigo, por alívio, por um chão que sustente nossa dança egoísta. Com a inocência no olhar sustentamos ilusões egocêntricas, cada qual com a sua, acreditando que é possível se esconder do mundo quando se fecha os olhos, quando não se olha pra dentro.
Somos garotos brincando de ser homens, ignorantes brincando de ser sapiens, movendo pessoas no tabuleiro como se fossem peões e manipulando-as como se fossem... crianças. Mas mal sabemos que os homens sempre afogam os garotos que um dia foram livres, puros e sensatos.
Somos crianças perdidas tentando sobreviver ao abismo do isolamento, sobretudo, e então nos agarramos desesperadamente uns aos outros, nos abraçamos, nos beijamos e, quando novamente nos iludimos pensando ser uma união, não conseguimos nos desviar do soco que o espelho preparou.
Somos crianças brincando de ser deuses, assim como os deuses brincam de ser criança, modelando o destino e desafiando o acaso. Somos subconscientes, abstratos e sequer existimos para além de nós mesmos.
Somos muito além do que se pode escrever, descrever, sentir, imaginar, perceber, julgar ou limitar. Somos egoístas sendo altruístas. Somos luz negra que ilumina e luz branca refratada decifrando a escuridão. Somos a boca que nada diz e o olho que a traduz, ou mesmo o olhar que muito diz sem querer fazendo com que bocas se calem. Somos dois, quase um só, mas antes disso eu sou e tu és. Somos homens, somos humanos. Sobretudo, somos apenas crianças.
Somos crianças na tempestade procurando por abrigo, por alívio, por um chão que sustente nossa dança egoísta. Com a inocência no olhar sustentamos ilusões egocêntricas, cada qual com a sua, acreditando que é possível se esconder do mundo quando se fecha os olhos, quando não se olha pra dentro.
Somos garotos brincando de ser homens, ignorantes brincando de ser sapiens, movendo pessoas no tabuleiro como se fossem peões e manipulando-as como se fossem... crianças. Mas mal sabemos que os homens sempre afogam os garotos que um dia foram livres, puros e sensatos.
Somos crianças perdidas tentando sobreviver ao abismo do isolamento, sobretudo, e então nos agarramos desesperadamente uns aos outros, nos abraçamos, nos beijamos e, quando novamente nos iludimos pensando ser uma união, não conseguimos nos desviar do soco que o espelho preparou.
Somos crianças brincando de ser deuses, assim como os deuses brincam de ser criança, modelando o destino e desafiando o acaso. Somos subconscientes, abstratos e sequer existimos para além de nós mesmos.
Somos muito além do que se pode escrever, descrever, sentir, imaginar, perceber, julgar ou limitar. Somos egoístas sendo altruístas. Somos luz negra que ilumina e luz branca refratada decifrando a escuridão. Somos a boca que nada diz e o olho que a traduz, ou mesmo o olhar que muito diz sem querer fazendo com que bocas se calem. Somos dois, quase um só, mas antes disso eu sou e tu és. Somos homens, somos humanos. Sobretudo, somos apenas crianças.
14 de setembro de 2014
Encantamento
Tempo, tempo, tempo, tempo.
De dentro do peito, um dragão que adormece
Sereno e calmo, embalado pela melodia.
Fica quieto, tão forte e belo, sonhando verdades
Pura fantasia.
Guardião do tesouro, a pedra rubra que naquela caverna
Se esconde.
Seu sono acoberta, quente e com aconchego
O grande mistério que emana daquela fonte.
Enquanto escuta o som onírico
Nada teme, tudo pode
Alegra-se, no sono dos deuses
E deixa até mesmo Baco embriagar-lhe em sua luxuriosa ode.
O relógio quebra.
O silêncio reina.
Num segundo de pura vertigem, o monstro desperta
E a pedra rubra se desprotege.
Fica sem capa, exposta à poeira de todo o ouro que
Ao seu redor acumula.
Os olhos de draco se enchem de lágrimas
Douradas e ferventes, como a forja áurea.
Sem música enlouquece, de dor se entorpece
Banhando-se em realidade não eloquente.
Onde está a sua música?
Onde, a nota musical?
Perdeu-se todo o trilho, a vida descarrilou-se
Explodiu em pedaços
A pedra filosofal!
O dragão estende suas asas, urra forte e incendeia-se
A si mesmo.
Pinga lágrimas de ouro, tesouro pirata,
Em busca do som que lhe traga
O sono perfeito.
Tempo.
Passa.
Tempo.
Som.
O relógio musical retorna à melodia.
Não é bela.
Dissonante.
Cheia de arranhões e cicatrizes em notas marcantes.
O dragão nota a diferença, mas se aquieta e se apraz.
Melhor uma música estragada do que o silêncio mordaz.
E encobre, com seu corpanzil armado, seu tesouro mais precioso,
Agora quebrado.
O vermelho daquela pedra, antes opaco e rançoso,
Faz que brilha levemente,
Como se nascesse novamente.
E o dragão adormece,
Palpitando de leve,
Sabendo que um dia acordará para o caos.
Mas isso ainda não é o presente.
| http://wallpaper.ultradownloads.com.br/172780_Papel-de-Parede-A-Boca-da-Caverna_1600x1200.jpg |
Por Bia de SouZa
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