27 de abril de 2013

Temporal

Tic, toc.
Tic, toc.
Tic, toc.



O giro ininterrupto do relógio interrompe o pensamento.
O tempo passa, passa, passa...
E nada de chegar a hora!

Tic, toc.
Tic, toc.  


Ouço ruídos logo ali.
Vozes, sussurros...
E eu, aqui, só e sonolenta
Sem um pingo de paciência
Para esperar.




Tic. 
Toc.




Esperada, a hora chegou!
Um caminhar se inicia, um caminho se percorre.

E ao olhar para o pulso,
num intuito puro e simples
O tictar do relógio ali está:



Mostrando que tudo nada mais é do que
- voilà! -

Uma questão de tempo.



Por Bia de SouZa
Imagem:http://www.portallos.com.br/arquivo/wp-content/uploads/2011/02/tempo.jpg

19 de abril de 2013

A Estação



Um casal a fazer planos
Sorrindo
E se ouve o apito ao longe

Uma criança a brincar

E já se sente a vibração dos trilhos

Um jovem com densas lágrimas
Que nunca cairão
E já se avista a fumaça distante

Com uma mochila de duas toneladas
Vazia
Um homem reencontra o trem

Um sorriso, uma curva, uma palavra, uma brisa...
Um piscar de olhos
E o trem já some no horizonte

Um piscar mais longo
Descanse em paz

Talvez nem tenha passado por aqui
Talvez nunca tenha existido

O Menor Conto



"Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados."
|

Ernest Hemingway

31 de março de 2013

àqueles sonhos de sonhador

por Jéfferson Veloso.


Certa vez, eu tive um sonho.
Desses sonhos que a gente lembra depois.
Desses sonhos que a gente se pega sonhando quando está acordado.
Desses sonhos que não nos permitem voltar à realidade.
Desses sonhos que nos fazem desejar não voltar ao mundo real.

Eu estava caminhando dentro de uma casa escura.
Escuro de um lado.
Escuro do outro.
Uma janela à frente.
E na janela, um clarão
E no clarão, um jardim
E no jardim, eu a vi.
Então, fui ao seu encontro
E tudo ficou tão real quando a senti
Tudo tão claro
E tudo ficou mais sereno quando ela me tocou
Senti sua tranquilidade me acolher como uma mãe
E digo, com todas as palavras, que eu a vi.
Ou pelo menos sonhei de verdade...
           Eu sonhei com a paz.

Mas não sonhei com uma paz qualquer.
Não era esta paz ilusória criada na realidade.

No meu sonho, a paz não era da cor branca
Não tinha a pomba branca como símbolo
A paz não tinha cor
Nem precisava de um animal como mascote
A paz nem precisava existir...

Minha paz ia muito além
Muito além de uma paz que poderia chamar só de minha
Muito além de algo que possa tê-la Criado...
Minha paz era de todo mundo
E todo mundo vivia em comunhão por partilhar da mesma paz

Ninguém saía em busca de paz
Era preciso apenas olhar para o lado e ela estava lá
ou talvez nem precisava estar...

No meu sonho
a paz não existia...
No meu sonho
a paz nem sequer tinha nome.
A paz não existia.
Não precisava existir
Ninguém sabia o que poderia significar a paz

Mas todos sabiam viver de verdade
Todos viviam em total liberdade
Todos compartilhavam a mesma vontade
E destas palavras
nem precisava saber de qual era a necessidade.
Então, como em qualquer outro sonho comum, acabou.
E, como em qualquer outro sonho comum,        tentei voltar à ele.
Mas, como em qualquer outro sonho comum,      não consegui.
Porém, como em qualquer outro sonho comum, sempre me lembrarei dele.
E assim, este sonho se tornará realidade nesta realidade em que vivemos.

Ainda vejo o dia em que todos caminharemos na mesma direção
Todos juntos, em perfeita união
partilhando a mais bela visão
Cantando uníssonos a mesma canção.


Minha paz não tem nome,
Minha paz não tem significado comum
Minha paz é só minha
E se é minha, é de todo mundo.

O menino e o Mestre.

Um menino pequeno e franzino se postou perante seu Mestre, que se encontrava sentado em um banco feito de bambu e folhas marrons, no meio de uma floresta de árvores secas.

Meio sem jeito, disse baixinho:

- Mestre... queria lhe perguntar uma coisa..

E o Mestre, com um sorriso discreto, aguardou.

- Porque sentimos algo que não queremos sentir?

O Mestre o olhou com atenção.

- Não se pode querer controlar tudo. Os sentimentos são uma parte de nós que não controlamos como o resto. Por isso sentimos, e não raciocinamos para isso.

- Mas é possível que passemos a sentir algo que não sentíamos antes? Algo que sempre achamos errado?

O Mestre respondeu calmamente:

- É possível. Porque os sentimentos são imprevisíveis e, como parte de nós, também são mutáveis - e olhando para o pequeno garoto, perguntou com certa curiosidade - Mas porque um menino tão jovem se preocupa com uma questão tão adulta?

E o menino, sem hesitar:

- Porque percebi que penso mais como eles deveriam, e vejo que eles se comportam como eu deveria.

O Mestre então, colocou o menino em seu colo e acariciou seus cabelos arrepiados.

- Esse é mais um mistério da nossa vida, meu pequeno. Ainda que sejamos controlados pela idade que temos, somos pegos de surpresa por uma parte de nós que não se deixa controlar pela idade.

- E o que devemos fazer? - perguntou o menino.

- Por incrível que lhe pareça - disse o Mestre com um suspiro - tentar nos manter sob controle. 

- Mas como controlar o que não tem controle?

O Mestre, então, perdeu-se em pensamentos profundos.

- Muitas vezes tentar na busca pelo impossível vale mais do que agir pelo que se conseguirá sem esforço. Mas vá brincar, meu pequeno. Não se deixe consumir por questões tão profundas.

- E o que farei quando me sentir errado? - perguntou o garoto, já saindo.

O Mestre sorriu.

- Apenas seja criança. Para você, pequeno, é o que basta.



Por Bia de SouZa
Imagem:

30 de março de 2013

O Psicopata



Parte I - O Velho Mundo

          Era um cara qualquer. Não muito jovem a ponto de não saber o que queria da vida, nem experiente o suficiente pra conhecer o mundo ao seu redor. A única diferença perceptível entre ele e os demais era o fato de não ser nada sociável. Tinha seu intransponível mundo particular, que na verdade não era característica exclusiva sua, ele apenas estava velho demais para ainda guardar as chaves da porta entre dois mundos da qual somente o próprio tinha acesso, mas nunca tivera a ousadia e a vontade necessária para enxergar e sentir o belo dia lá fora. Bela era a vida, pelo menos até o momento em que botou os pés para fora do seu universo particular. Pelo menos até o momento em que suas pupilas se dilataram ao extremo e seus olhos engoliram todo o espantado rosto. Um absurdo.

Parte II – Descobertas

          Não se sabe ao certo qual a motivação para tirar a chave do bolso e botar o cabelo contra o vento que soprava lá fora, mas estava, enfim, no mundo novo. Num primeiro momento apenas observava e analisava de longe, porém minuciosamente. Ainda sem entender muita coisa, apenas seguia alguns passos na areia. Obedecia a certos costumes que na realidade não eram exatamente seus, certos rituais que não pareciam normais, seitas estranhas com entidades que não eram daquele mundo e muito menos do seu velho casulo. Começou então a se arriscar mais e seguir pessoas de perto. De início, apenas pessoas normais. Quase como uma sombra, quase invisível, intangível e imperceptível. Estava aprendendo da pior maneira, descobrindo as crateras e abismos desse mundo tão distinto do seu simples, monocromático e unilateral mundo. Eram constantes as explosões em dor na sua cabeça, uma tortura sem fim, sem fonte ou início que fosse explicável. Só conseguia certo alívio ao se camuflar e continuar a seguir.
          Seguir. O tempo e a repetição traziam o tédio. Nada de novo é o que o faz buscar o novo. Passou a seguir gente grande, gente esperta. Agora todos sabiam quem ele seguia e quais seriam seus próximos passos, embora ninguém parecesse se importar muito, pois ele estava apenas explorando e... seguindo. Perceptivo como sempre, observou que muitos já haviam sido condenados por toda uma vida, muitas vezes ao sofrimento eterno, apenas por simplesmente seguir, assim como ele estava a fazer mesmo que sem saber o porquê. Percebeu também que muitos, muitos mesmo, não eram tão perceptivos quanto ele. Um absurdo.

Parte III - Dor, Sede E Vício

          As dores de cabeça eram cada vez mais insuportáveis e frequentes, chegando ao ponto de obrigá-lo a passar noites e mais noites em claro a surtar. Seu mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, nem mesmo parecido com o que era antes, muito menos o seu cérebro. Aquele sonho imaginado através da parede tempos atrás, quem diria, viria a se tornar um frequente e sangrento pesadelo na grande obscuridade da realidade entre dois mundos não tão distantes, mas completamente distintos. Pode aguentar por muito tempo as dores de cabeça mas não foi capaz de evitar ter de remediá-las. Algo na sua inflamada mente lhe dizia, logo após os momentos de tormenta, que só havia um modo anestesiar aquela tortura a ponto de salvar-lhe de uma morte lenta e certeira. Haveria de escolher seu primeiro alvo mas não fazia a mínima ideia de como fazer isso e nem mesmo sabia como se aproximar sem causar espanto ou medo, pois nunca havia saído das sombras.
          Mais uma vez começou pelos normais. Uma, duas, dez. Pessoas vazias molhavam sua sede de alívio assim como um quase beijo, como um leve encostar de lábios acende a libido. Nunca encontrava perguntas suficientes ao destrinchar suas vítimas, somente inúteis verdades. Ambos, pessoas e verdades, eram descartados. Aquilo não era nada saudável, mas era viciante por mais frustrante que fosse. Queria cada vez mais e mais... e depois mais um pouco. Não se mete o dedo no bolo sem a intenção e sem o desejo de saboreá-lo em cada centímetro. Haveria de se saciar. Mais uma vez se via diante dos grandes, mas dessa vez eram muitos, muito mais do que acreditava que existissem. Isso era só mais uma das coisas que a grande parte dos indivíduos, nem um pouco coletivos, sempre ignoravam. Um absurdo.

Parte IV - Dissecando

          Os grandes, que não lhe pareciam novos, eram por dentro, para sua surpresa e frustração, tão vazios quanto os outros, muitas vezes até mais frágeis, e algumas vezes podres ou com órgãos quase petrificados, sem qualquer uso há décadas. Alguns órgãos, como o cérebro, tinham sempre cores distintas, mas na maioria dos que ele tinha analisado até agora a gama de cores não variava para nada além de alguns tons de cinza. Um, dois, dezenas. Nada. Cansado e com nojo de só encontrar carcaças vazias, cheias de verdades, traçou como alvo os grandes ignorados, os pobres desesperados. Um, dois, três...

Parte V - A Pergunta No Espelho

          Finalmente uma gama de cores completa onde encontraria toda cor que quisesse. O suficiente, o essencial. As dores foram diminuindo a intensidade pouco a pouco, e embora nunca tenham parado, já não incomodam mais. Pelo contrário, elas se tornaram um indicador de que se estava no caminho certo. Sempre esteve, aliás. Até que enfim entendera. Nunca havia se olhado no espelho e acabara de perceber no reflexo do cristal que ele próprio era demasiado grande. Percebera também que foram as perguntas que fez após transitar entre os mundos que o tinham tornado assim. Por final, se esqueceu quase que por completo do cara que se escondia atrás do muro, restando apenas uma breve lembrança do que imaginava que encontraria deste lado.
          Viu-se maior no cristal, mais forte, e ao contrário do que imaginava, enxergou atrás de si um mundo completamente distorcido, de pernas e cabeça pra baixo, com pessoas vazias, comercializáveis e descartáveis. As cidades em chamas com alguns jogando gasolina e outros, por sua vez, aplaudindo e derretendo na multidão, como quem aplaude o toureiro e também a tourada a mirar em sua direção. Ao invés de cores, ritmos e sabores, atrás do muro havia um mundo completamente diferente, de regras informais, desconhecidas e um tanto quanto violentas. Aliás, bastante violentas, escondidas em várias formas, de forma a serem até mesmo... aplaudidas. Mundo de codinome louco e entorpecente. Uma tortura. Um absurdo. Um psicopata.