Parte I - O Velho Mundo
Era um cara qualquer. Não muito jovem a ponto de não saber o que queria da vida, nem experiente o suficiente pra conhecer o mundo ao seu redor. A
única diferença perceptível entre ele e os demais era o fato de não ser nada sociável. Tinha seu intransponível mundo particular, que na verdade não era característica exclusiva sua, ele apenas estava velho demais para ainda guardar
as chaves da porta entre dois mundos da qual somente o próprio tinha acesso, mas
nunca tivera a ousadia e a vontade necessária para enxergar e sentir o belo dia
lá fora. Bela era a vida, pelo menos até o momento em que botou os pés para fora do seu universo particular.
Pelo menos até o momento em que suas pupilas se dilataram ao extremo e seus
olhos engoliram todo o espantado rosto. Um absurdo.
Parte II – Descobertas
Não se sabe ao certo qual a motivação para tirar a chave do bolso e botar o cabelo contra o vento que soprava lá fora, mas estava, enfim, no mundo novo. Num primeiro momento apenas observava e
analisava de longe, porém minuciosamente. Ainda sem entender muita coisa,
apenas seguia alguns passos na areia. Obedecia a certos costumes que na realidade não
eram exatamente seus, certos rituais que não pareciam normais, seitas estranhas
com entidades que não eram daquele mundo e muito menos do seu velho casulo. Começou então a se arriscar mais e seguir
pessoas de perto. De início, apenas pessoas normais. Quase como uma sombra, quase
invisível, intangível e imperceptível. Estava aprendendo da pior maneira,
descobrindo as crateras e abismos desse mundo tão distinto do seu simples, monocromático e
unilateral mundo. Eram constantes as explosões em dor na sua cabeça, uma tortura
sem fim, sem fonte ou início que fosse explicável. Só conseguia certo alívio ao
se camuflar e continuar a seguir.
Seguir. O tempo e a repetição traziam o tédio. Nada de novo
é o que o faz buscar o novo. Passou a seguir gente grande, gente esperta. Agora
todos sabiam quem ele seguia e quais seriam seus próximos passos, embora ninguém parecesse se importar muito, pois ele estava apenas
explorando e... seguindo. Perceptivo como sempre, observou que muitos já haviam
sido condenados por toda uma vida, muitas vezes ao sofrimento eterno, apenas
por simplesmente seguir, assim como ele estava a fazer mesmo que sem saber o
porquê. Percebeu também que muitos, muitos mesmo, não eram tão perceptivos
quanto ele. Um absurdo.
Parte III - Dor, Sede E Vício
As dores de cabeça eram cada vez mais insuportáveis e
frequentes, chegando ao ponto de obrigá-lo a passar noites e mais noites em claro a surtar. Seu mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo, nem mesmo parecido com o
que era antes, muito menos o seu cérebro. Aquele sonho imaginado através da
parede tempos atrás, quem diria, viria a se tornar um frequente e sangrento
pesadelo na grande obscuridade da realidade entre dois mundos não tão
distantes, mas completamente distintos. Pode aguentar por muito tempo as dores de cabeça
mas não foi capaz de evitar ter de remediá-las. Algo na sua inflamada mente lhe
dizia, logo após os momentos de tormenta, que só havia um modo anestesiar
aquela tortura a ponto de salvar-lhe de uma morte lenta e certeira. Haveria de
escolher seu primeiro alvo mas não fazia a mínima ideia de como fazer isso e
nem mesmo sabia como se aproximar sem causar espanto ou medo, pois nunca havia
saído das sombras.
Mais uma vez começou pelos normais. Uma, duas, dez. Pessoas
vazias molhavam sua sede de alívio assim como um quase beijo, como um
leve encostar de lábios acende a libido. Nunca encontrava perguntas
suficientes ao destrinchar suas vítimas, somente inúteis verdades. Ambos, pessoas e
verdades, eram descartados. Aquilo não era nada saudável, mas era
viciante por mais frustrante que fosse. Queria cada vez mais e mais... e depois mais um
pouco. Não se mete o dedo no bolo sem a intenção e sem o desejo de saboreá-lo em
cada centímetro. Haveria de se saciar. Mais uma vez se via diante dos grandes,
mas dessa vez eram muitos, muito mais do que acreditava que existissem. Isso era só mais uma das coisas que a grande parte
dos indivíduos, nem um pouco coletivos, sempre ignoravam. Um absurdo.
Parte IV - Dissecando
Os grandes, que não lhe pareciam novos, eram por dentro, para
sua surpresa e frustração, tão vazios quanto os outros, muitas vezes até mais frágeis, e
algumas vezes podres ou com órgãos quase petrificados, sem qualquer uso há décadas. Alguns órgãos, como o cérebro, tinham sempre cores distintas, mas na
maioria dos que ele tinha analisado até agora a gama de cores não variava para
nada além de alguns tons de cinza. Um, dois, dezenas. Nada. Cansado
e com nojo de só encontrar carcaças vazias, cheias de verdades, traçou como
alvo os grandes ignorados, os pobres desesperados. Um, dois, três...
Parte V - A Pergunta No Espelho
Finalmente uma gama de cores completa onde encontraria toda cor que
quisesse. O suficiente, o essencial. As dores foram diminuindo a intensidade
pouco a pouco, e embora nunca tenham parado, já não incomodam mais. Pelo
contrário, elas se tornaram um indicador de que se estava no caminho certo. Sempre
esteve, aliás. Até que enfim entendera. Nunca havia se olhado no espelho e
acabara de perceber no reflexo do cristal que ele próprio era demasiado grande. Percebera
também que foram as perguntas que fez após transitar entre os mundos que o tinham
tornado assim. Por final, se esqueceu quase que por completo do cara que se
escondia atrás do muro, restando apenas uma breve lembrança do que imaginava que
encontraria deste lado.
Viu-se maior no cristal, mais forte, e ao contrário do
que imaginava, enxergou atrás de si um mundo completamente distorcido, de pernas e
cabeça pra baixo, com pessoas vazias, comercializáveis e descartáveis. As cidades
em chamas com alguns jogando gasolina e outros, por sua vez, aplaudindo e derretendo na
multidão, como quem aplaude o toureiro e também a tourada a mirar em sua direção.
Ao invés de cores, ritmos e sabores, atrás do muro havia um mundo
completamente diferente, de regras informais, desconhecidas e um tanto quanto
violentas. Aliás, bastante violentas, escondidas em várias formas, de forma a
serem até mesmo... aplaudidas. Mundo de codinome louco e entorpecente. Uma tortura. Um
absurdo. Um psicopata.