17 de março de 2013

Vos

La respiración aumenta, así empieza, tu rosto se cubre por pequeñas lágrimas, y luego el dolor abdominal, fulminante, te hace caer al piso con violencia y entre gritos y gritos tratar de respirar con calma, esa vieja técnica que nunca funciona, contar hasta tres, o diez si es peor el caso, pero nada, nada, solo cambia la respiración, pero los pensamientos siguen tan lacerantes como antes, y rápidos van y vienen, flotando en la nube perdido de nuestros pensamientos, de nuestra cabeza que como un machete nos corta sin parar, con violencia y determinación, no hace pedazos en su filo.
Todavía te veo, te veo en fotos, en pensamientos, en reflejos, te veo, y no sé como apagar el recuerdo, un recuerdo que solo trae lo dicho antes, haces parte de un lado de mi que trato de bloquear a toda costa, como si de eso dependiese mi vida, me entregue a vos, a la nada, al terremoto del mar de tu mirada, de esa mirada clara, buena, que como una ventana me mostraba oportunidades, y tu cara, tu palabra nunca dicha, que me habría al medio y sacaba todo lo que soy a fuera, todo, lo bueno y lo malo, lo malo y lo bueno, me entregue a la nada, a vos y a tu color de esperanza.

Casi paso un año ya, paso, pero no paso realmente, sabes no? Nada paso todavía para mi, todo sigue perenne como una sombra que cubre mi vida, mi vida sin tu figura, solo tu figura, ni siquiera tu palabra. Por ahí por no tener tu palabra mas duele supongo, representabas mucho mas de lo que realmente eras, y vos, allá vos y tus amigos, tu facultad de medicina o derecho, allá vos, acá yo, acá, sola, y olvidada.
Ni siquiera se lo que estoy escribiendo, pero sé que escribiendo los pensamientos cesan y el dolor también, el dolor, mi creación, vos, en parte, mi creación.
Vos, con tus miradas secretas, que atravesaban las multitudes, y me llegaban como un choque inesperado de alegría, vos con tu cabeza roja que frente al sol mas brillaba, y te veía, lejos yo, te veía… Y nada mas, nada, solo miradas, y palabras que no significaron nada, para vos, para mi, es otra cosa. Vos, fuiste otra cosa, desde el inicio sabía que nunca iba a tenerte, pero el inicio rápido se convirtió en medio, y ese “no” se convirtió en “si” lleno de esperanza única, esperanza, que mierda la esperanza no ? Para que… decime para que, porque, no se, no se, estoy desbordando, estoy cayendo, muriendo, y la vida, nada, solo sigue, y gira y gira, y el sol para mi, ni brilla, la luna para mi misteriosa solo ella entiende, ella olvidada por todos, ella, solo un reflejo que dramático se muestra para quien la mire y pierda tiempo, porque solo es un reflejo, reflejo.
Vos, vos, vos, vos, vos, no me canso, no me canso nunca, de decir “ vos” tan ambiguo parece no? Sin en cambio en ese vos, se esconde vos, mi amor, solo vos, y únicamente vos, que verdaderamente no amo, solo duele, duele, mucho, vos, hermosa piel de luna indómita, hermoso, te odio, maravilla de mis días pasados, te odio, sal de mis heridas, te odio, calor e ilusión de un posible mañana, te odio, te odie, no mas, no hay espacio en el hueco hondo que implantase en mi cuerpo, no para vos, mi perdición, no para vos, vos, vos ,vos, vos, no mas, nunca mas, nunca.

Por Paloma S. Rebes, em
Mamihlapintapei

15 de março de 2013

Instável.



Olho ao redor, e nada vejo.
Uma sensação vazia me apodera.
O mundo já não mais existe.


Apenas células vivas de uma realidade morta, descolorida.

Tantos desejos, tantos medos...
Fantasmas rondando corpos como abutres em carcaças.

Edificações desestruturadas, organismos acéfalos e desalmados.

Desajustes organizados, padronizados no tempo.
Indiferenças tão à flor da pele
que a pele das flores já se acha murcha e caída numa terra seca e sem dono.

O Vento cessou.
A Luz apagou.
A Lua surgiu, clamando por um uivo de esperança.

Nos becos imundos, só os vestígios de movimento.
Nem mais a Morte sente cheiro de novidade.


E eu, perdido em pensamentos e devaneios,
Me pego inserido numa bolha de vidro
Transparente e negra.

Sem saída
para uma fuga impossível.










Por Bia de SouZa

6 de março de 2013

Notas de Rodapé sem Poemas



(*)Is there anybody OUT there? Acho que não, certeza que sim. Terças-feiras não são nem um pouco dias inspirativos, pelo contrário, costumam ser cansativas e depressivas, o que dá no mesmo. Não, isso não é uma contradição. Não em sentido literal. Contradições são como regras, existem para ser quebradas, do mesmo modo de que clichês são para serem abusados.

(*)Depois de quase acabar uma novela magnífica, uma crítica perfeita à falta de crença de uma sociedade e, ao mesmo tempo, autocrítica, meu cérebro dava voltas e voltas ao redor do seu próprio "eixo" (assim como a Terra, "inexplicavelmente", gira), que é o mais exótico que conheço, e conheço apenas um semelhante. Is there anybody IN there? Tem sim, mas está acuado, talvez fugindo para o nunca, para o incompreensível, para a verdade de quem escolhe o caminho mais fácil. Não há pra onde fugir, talvez por isso eu escreva, pra fugir da vida real. Como é que eu troco de canal? Desta vez a resposta é simples e única. Bang.

(*)Aí está o meu fascínio pela ficção, só com ela me alivio, pois os planetas que giravam semelhantemente ao meu já morreram há muito, foram engolidos pela estrela maior, a verdade de que não se pode fugir. Alguns chamaram por ela, outros desistiram de procurar. Outros, como meus comandantes, morreram por tentar ultrapassar as barreiras da estrela negra, a estrela da morte. Eles conseguiram e isso aumenta ainda mais minha doce indecisão. A estrela deles ainda brilha, mesmo parecendo apagada, milhões de planetas anões ainda orbitam ao seu redor, e agora somente estes conseguem enxergar o tamanho brilho dessa estrela vermelha. Não saber o que fazer às vezes faz nossa certeza, às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr do Sol. Às vezes faz a diferença.

(*)Tenho fugido da escrita ultimamente. Tem me feito mais mal do que o esperado, além do fato de que rascunhos passam como raios e eu não consigo mais fotografá-los. Mordi o meu próprio rabo com presas venenosas. Armas de brinquedo, medo de brincar. É incrível como não consigo deixar a escrita entre linhas embaçadas de lado, brincando com as palavras como se fossem instrumentos que me pertencessem. Toda vez que brinco, brinco sozinho, num show pra mim mesmo. Pra quem mais seria? Desconfio que minha vida seja um labirinto, planejado milimétricamente para não ter saída. Uma busca eterna pela perdição, nem sim, nem não, e no meio da corda bamba não se tem tempo pra respirar. I have become comfortably numb, my lips move but no one can hear what I say. Isso deve fazer parte do meu desespero. Desespero. Também na forma pouco utilizada de não ter expectativas, digamos assim, "desesperança". Já preciso me refugiar na minha ficção novamente, na música e na palavra indireta. Nas horas em que o mundo vai à sua caça, você é apenas a presa indefesa, sem Guevara, sem Chávez, sem seu escudo vermelho, sem deus, sem Odin, sem você mesmo. Não seria má ideia, nessas horas, ter à quem recorrer. Se a vida é um filme, eu não conheço o diretor. O que me conforta é que a tempestade está chegando enquanto os demônios estão comemorando uma suposta vitória. Nem só o amor é cego, e quem "já perdeu" tem um grande aliado nesse momento: o instável, insustentável e autoconfiante... inimigo, que não se cansa de morder o próprio rabo.

(*)Escrevi, escrevi... e não disse o que tinha pra dizer. Talvez eu nunca vá dizer. Sem plateia não tem show, mesmo que algum desinformado se defina como plateia. Sei que não quero deixar isso morrer no labirinto com meu corpo. Talvez daqui uns anos algum extraterrestre ouça meus gritos em interferências nas ondas de rádio, ou talvez um desavisado encontre um enigma vermelho, escrito a sangue, numa parede úmida qualquer de uma extremidade do labirinto, que na verdade sempre teve uma saída, a uma curva dali.


25 de fevereiro de 2013

Inexplicavelmente


Por Bia Sz



Estava atrasada para a faculdade. Como conseguia não levantar com o som gritante do despertador de seu celular?! Já há muito tempo colocara como toque "Blinded in Chains", do Avenged Sevenfold, pois esperava que o bum inusitado da bateria logo nos primeiros acordes da música fossem capazes de jogá-la para fora da cama.

Mas lá estava ela, atrasada, suada e cheia de livros nas mãos. Odiava sair de casa sem tomar pelo menos uma ducha. Sentia-se suja - como de fato estava - e imaginava que todos soubessem que ela não havia tomado banho, ainda que seu último tivesse sido antes de dormir. Tinha TOC por limpeza pessoal.

O ponto de ônibus era a três quadras da sua casa. Duvidava que conseguiria chegar até lá a tempo de pegar o ônibus das seis e meia. Como se odiava por não conseguir levantar como uma pessoa normal! Apertou o passo e seguiu adiante, sem olhar para os lados, sonhando com um atraso inesperado do lotação.

Enquanto andava, ia revisando o trabalho que teria para apresentar. "O termo Cultura possui inúmeras concepções, dentre as quais engloba as diversas manifestações artísticas, folclóricas,  étnicas, inclusive educacionais, contidas em uma sociedade, como um conjunto de ideias, tradições e modos de vida, que são demonstra..."

Faltando menos de meia quadra, o ônibus entra na rua. E foi como se tudo fosse captado em slow motion:
Ela começou a correr, enquanto não perdia de vista o automóvel que estacionava. Atravessou a rua em disparada, sem notar a Ninja que se aproximava mais rápido do que o vento. Tudo o que ouviu foi um zumbido próximo e uma forte dor se apoderou de suas costas. Depois, o mundo caiu vertiginosamente e foi tomado pela escuridão da morte.

*-*-*

Morrer.
Se a morte fosse mesmo assim, nada do que diziam era verdade. Tudo estava escuro. Não havia luz no fim do túnel. Aliás, esse papo de túnel era furada. Ela não conseguia nem ver um palmo à sua frente. Tanto poderia haver um túnel, como um matagal, uma praia ou um desfile de escola de samba. No meio daquele  eclipse total, ela nem mesmo conseguia saber se estava mesmo ali, ou apenas sonhando um sonho dolorido e...preto.

A dor... agora ela sentia. Podia perceber que estava machucada, mas não podia dizer o quanto. Foi então que tomou consciência de que não poderia estar morta. Não. Na morte, não havia dor. Nada de purgatório,  umbral, ou essas besteiras. Ela não acreditava. Não havia dor depois da morte e isso era para ela seu maior consolo. E se conseguia perceber o corpo latejando, era porque ainda permanecia viva... sabe-se lá porquê.

Como que por mágica, a luz foi penetrando em seus olhos e aos poucos o silêncio do eclipse foi sendo substituído por vozes, bem ao longe, e um vulto foi tomando forma à sua frente. Seus olhos estavam embaçados, e ela percebia que havia lágrimas ainda molhadas nos cantos e em suas bochechas. Ia levando a mão aos olhos, mas algo tocou seu rosto mais rápido. Eram dedos. Delicados, macios. Eles limparam suavemente seus olhos e aos poucos o vulto à sua frente foi se tornando mais nítido. 

Era um rapaz de cabelos loiro-acobreados. Parecia um pouco mais velho que ela. Seus olhos ardiam de preocupação, isso ela conseguia perceber em meio ao caos em que se achava. E esses olhos... Tinham uma tonalidade arroxeada que ela imaginava que só Elizabeth Taylor poderia ter. Então ele perguntou, a voz trêmula:

- Olá... Você esta bem? Qual o seu nome..? Consegue me ouvir?
- Oi...Sim...Manue..lla...Sim... - ela disse, sem saber se ele entenderia que ela acabava de responder a todas as perguntas, prontamente, em ordem.
- Bem.. Menos mal. Consegue se mexer? Tenho a impressão de ter quebrado você ao meio... Perdoe-me, eu... Só não queria..
- Tudo bem... - Manuella o interrompeu, achando aquelas explicações desnecessárias - Estou bem... Ai!
Pensando bem, era como se um rolo compressor houvesse passado por sua cintura.
- Acho que... preciso de ajuda para levantar... Mas, ei... Quem é você...?
Ela sentiu que algo passava gentilmente por suas costas e a erguia com cuidado. A dor não estava mais tão forte, mas suas pernas estavam começando a ter câimbras. Ele a colocou sentada, ainda com as mãos apoiando suas costas. Mesmo agachado, ele parecia alto. Soltando um suspiro que parecia de alívio ele disse:
- Helel. Meu nome é Helel.



Então, ele se chamava Helel. Um nome diferente, peculiar, para não dizer o nome mais esquisito que Manuella já havia escutado em toda sua vida. Mas por outro lado, em meio às lágrimas e à dor, Helel parecia um dos homens mais bonitos que ela já havia visto.

Era loiro. E isso, sim, era estranho. Tinha uma certa tendência a gostar de morenos, simplesmente por achar que loiros não tinham muita graça. Seus cabelos aguados nem a faziam sentir borboletas no estômago.

Piscando com mais intensidade, para retirar os últimpos vestígios lacrimosos dos olhos, Manuella conseguiu dizer:

- Bem... Acho que devo lhe agradecer. Você parece ter salvo minha vida. Obrigada.

- É, eu realmente salvei você - disse Helel, ainda apoiando-a pela cintura - Mas parte da culpa por você estar assim é minha, também.

- Oi? Como é? - Manuella o encarou, achando que ele provavelmente tivesse batido com a cabeça mais forte do que ela.

- Se não fosse por eu ter entrado tão rápido na rua, você não teria se acidentado.

Encarando-o ela estava, encarando-o ela permaneceu. A única forma de suas palavras fazerem sentido era Helel ser o motorista da Ninja, mas se ele estivesse dirigindo, não conseguiria salvá-la sem se matar.

A história ficava sem sentido do mesmo jeito.

- Olha, Helel, não sei bem se enten...

Mas ela não conseguiu terminar a frase, pois nesse momento, uma ambulância chegava ao local para socorrê-la.

- Menina! O que faz de pé!? - uma socorrista exclamou, olhando furiosa para Helel - Foi você?!

- Ela está bem - Helel disse, e Manuella não soube explicar, mas a socorrista pareceu acreditar no que ele dizia.

- Ainda assim, vamos levá-la.

- Estou bem - Manuella concordou - Acho que se eu for para casa e me deitar, vou melhorar bem rápido (Adeus trabalho de faculdade, mesmo...).

- Eu fico com ela, se ela permitir - Helel disse, e para sua própria surpresa, Manuella se viu assentindo.

- Nesse caso, dou-lhes uma carona até lá - disse a socorrista, já os empurrando para dentro da ambulância.

Olhando rapidamente ao redor, Manuella não conseguiu visualizar a Ninja em lugar nenhum.

Enquanto faziam o pequeno percurso até o prédio de Manuella, a socorrista e mais um enfermeiro fizeram uma checagem na garota, para verem se estava mesmo tudo bem. Estranhamente, tudo o que Manuela sentia era dor de cabeça e um pequeno incômodo na região lombar.

É. Ela era forte.

Ao chegar em seu apartamento, foi amparada pela socorrista e por Helel, que abriu a porta (como ele conseguira a chave?) e a colocou em sua cama. Seus livros também foram colocados em sua estante, delicadamente, o que ela muito agradecia. Depois de fazer um milhão de recomendações as quais Manuella sequer ouviu, a socorrista foi embora, deixando-a apenas com seu mais novo conhecido.

E, então, o silêncio. "Um silêncio em três partes", pensou ela, lembrando-se dos livros de Patrick Rothfuss. Ela riu, percebendo que não tinha sido uma boa ideia.

- Aaai! - ela exclamou, colocando as mãos nos quadris.

- Rir não é o melhor remédio, garanto - Helel disse com um sorrisinho, encaminhando-se para a janela.

Ele permaneceu ali por instantes infinitos, até que Manuella não aguentou mais.

- Está com medo de algo? Não acho que meu atropelador consiga chegar ao décimo segundo andar.

Ele a olhou surpreso, como se a visse pela primeira vez.

- Nunca duvide... Mas não, eu estava apenas conferindo a movimentação. Você deu sorte de não ter muita gente nas ruas a essa hora. Seria muito irritante ser importunada nessa situação.

- Dei sorte? Creio que dei muito azar. Nesse horário, nem pessoas nem carros aglomeram as ruas. Mesmo assim, consegui ser atropela...aaaaiiii!

Helel estava apertando os dedos contra a têmpora de Manuella, atitude que ela não entendia, e que doía muito.

- Pare com isso! Já! - ela exclamou, tentando - em vão - tirar as mãos dele de sua cabeça - Isso DÓI!

- Calma, você deveria relaxar... Só estou fazendo uma massagem que aprendi há muitos anos... Você vai ver, ficará bem melhor em alguns minutos.

Ainda contrariada, Manuella deixou-se levar pela massagem dolorida de Helel e fechou os olhos. Não acreditava na reviravolta do seu dia. Num momento, estava preocupada com o trabalho que teria para apresentar. No outro, estava preocupada em não deixar que um desconhecido a deixasse com sequelas na cabeça.

A vida é mesmo louca, pensou.

E Helel até que não tinha as mãos tão pesadas quanto achara a princípio.

Ele a salvara... E estava lhe fazendo massagem... Afinal, tinha que ser alguém legal... Ainda que com nome estranho...

...

Manuella acordou com o quarto numa penumbra só. Tateando à procura do abajur, encontrou o interruptor e o acionou. Seu quarto parecia um ambiente de filme de terror: escuro, frio, deserto...

Helel.

Ele não estava lá.

Levantando-se com cuidado, Manuella percebeu que não sentia mais tantas dores pelo corpo. Se aquilo tinha sido efeito da massagem de Helel, meu Deus, ela queria aquilo todos os dias!

Encaminhou-se até a cômoda e olhou as horas. Neste instante, o relógio badalou: seis da tarde.

Ela havia dormido por quase doze horas. Isso era mais assustador do que ser atropelada.

Foi então que ela viu sua pequena bandeja de inox em um canto da cômoda. Em cima dela, açúcar, um saquinho de chá de erva doce e uma chávena com água quente. Havia um papel dobrado por cima do açucareiro.

"Relaxe... Se acha que tem azar, creio que tenho muita sorte. H."


E da mesma forma como havia surgido, ele se ia.

Como fumaça.



22 de fevereiro de 2013

eu sou Raul

por Jéfferson Veloso.



Simples assim:  
sou o sim
sou o não
talvez seja sim
talvez sim
talvez não
talvez seja tudo
ou talvez seja nada

Seja o que for que sou
Que eu seja o simplesmente
com formato displicente
um vulgo inconsequente
dentre tantas outras mentes
com ações inconsequentes
agindo solenemente
buscando sua própria tangente
com caminhos subsequentes.

Sou o enfim
Com breve receio de mim
Que não consegue encontrar o fim.

Um salvador do mundo
Um salvador de nada
Um Salvador Dalí

Um ser desconexo sem nexo

Sou pura safadeza
Sem meia sutileza
Vagando pelo obscuro
Um pouco em cima do muro


Sou o filho do meio termo
Somos
Serei
Seremos

Talvez esteja sendo o demais
Que se apaixona pelo de menos
Colocando no mundo um mais ou menos
Que do futuro nada saberemos.

Sou assim,
sou assado
A tristeza do palhaço
A graça do desgraçado
que finge ser engraçado
Amargurado

Sou o cobertor velho que largaram no caminho
Sou a camisa verde no fundo do guarda-roupa
Sou o que guardaram no cantinho
Guardado para ser esquecido.


Sou incógnita
um todo que não faz nada
Ou um nada responsável por tudo
Um simples reflexo n'água
Refletindo o tempo em seu contínuo fluxo.


Eu sou o meio da conversa
Palavra esquecida
Um inventário barato de qualquer marfim



Sou meias palavras
Sou segundo sentido
Sou meio, sou fim
O caso do descaso
Desacostumado com o acaso


Sou fera ferida
Sou morte morrida
Despachos e afins.


Sou puro sentimento guardado em casca viva
Sou o doce puro sangue da vida sofrida
Sou o Seu Antônio do boteco da esquina
Sou a Severina da pamonharia
Sou o Senhor João da relojoaria
Ou a dona Maria da Padaria
Sou luz, sou Jesus.
Sou o deus de minha própria escrita.

Sou o meio da história
Sou a merda do mundo

Sou a desgraça incessante
Sou o pouco de mim
A luz das estrelas
Ou o preço do fim
O fruto de um sonho
Ou o resultado do sonhador

Eu sou a minha própria igreja
Eu sou o grito de quem peleja
Sou a verdade que sai da cerveja
Então, que seja!

Ser o verso importante que rima com nada
Ser o olho que tudo vê com visão bifocal
Ser a armadilha que caiu na própria emboscada
Ou a meia sem par esquecida no varal?


Ser a desculpa esfarrapada
de uma nota mal cantada

desafinada.

Sim
Eu sou único
Assim como todo mundo.



Um grilo falante de uma cabeça pensante.

19 de fevereiro de 2013

Avião



"You may say, I'm a dreamer..."

          Sonhadores não mudam, mas os ventos mudam de direção e “o tempo voa nas asas de um avião”. Apenas sonhos de criança. Quem disse que sonhos não morrem? Quem disse que é preciso sonhar? As almas mais felizes se desintegram no esquecimento com um sorriso sincero e inesquecível sem sequer saber o que são sonhos, os sonhos que sonhamos. Pobres decadentes, ricos sorridentes. Depressivas pílulas vermelhas ou azuis parecem não oferecer escolha. Cheira a destino, mas tem gosto bem real. Talvez exista uma chave, a questão chave, a resposta para a felicidade. Talvez ela realmente exista, em sua forma mais simples, tão simples quanto a própria, no sorriso ensolarado e suado, fétido e sujo, simples e encantador. O brilho nos olhos e a mãos calejadas, firmes na enxada, se confunde com o brilho nos olhos e as mãos calejadas, sem segurança no lápis. Tristeza é felicidade, sorrisos caem como lágrimas, explodindo em cores no lado escuro da lua.
"Can we pretend that airplanes in the night sky are
like shooting stars.
I could really use a wish right now"...
          De onde vem o ânimo? Por que viver entre latas de gente, sobras de ratos e aglomerados de lixo? E a inspiração do poeta, de onde vem? Mais uma vez se confundem as fontes, e os destinos se cruzam. Nada parece se tratar de escolhas de cores, perfumes ou sabores. O tempo não é mais uma linha. O presente se torna passado tão rápido quanto o futuro vira presente, e o que ecoa na mente é apenas o velho clichê: só existe o agora. Fugindo disso, ao passado, entre linhas - nas entrelinhas do horizonte - não tão distantes: o futuro é o presente.
         Não seria mais digno se despedir da sua realidade? Quanta ingenuidade! Que diferença faria? Eles são menos reais do que a felicidade. Sequer existem. Nunca existiram. Nunca existirão. Falando em felicidade novamente, voltamos ao ponto chave: o duplipensamento faz mais sentido do que parece, o (in)sensato diz que realmente ignorância é força e talvez a resistência seja idiotice. Tanto faz. Como num sonho de criança que um dia morreu afogado, porém sem deixar de bater os braços em momento algum mesmo vendo a praia tão distante e impossível de alcançar, pode ser que morra mais um sonho, dessa vez um sonho de verdade, aliás, mais que um sonho, um ideal. Mas como dizem os bons, não há nada mais imortal. Algo me lembra outra velha frase: nadou, nadou... e morreu na praia! Até que ponto isso é ruim? Talvez até que provem o que é realmente impossível, pois kamikazes nunca morrem.
O sonho não morreu, apenas mudou de aeronave.

16 de fevereiro de 2013

Não sei ao certo o autor deste texto, mas achei tão lindo que não merecia ficar apenas numa página de rede social.
Assim, minha fonte é apenas a página Universo Psicótico, do Facebook. Muito interessante, por sinal.
 
Deleitem-se.
 
 
“Escrevo porque é assim que fujo do resto do mundo. Porque eu não sei gritar e dizer palavras horriveis para ninguém. Escrevo porque é o que resta a alguém que não sabe reagir aos golpes que leva. Escrevo porque a fala me parece muito rápida e de fácil esquecimento. No entanto um texto pode durar anos e anos na memória de alguém. Pode mudar uma vida. A fala, ao menos a minha, acontece aos socos, i...ntercalada por pensamentos; É interrompida por “hmm” a todo tempo. Já a escrita é leve, é clara, é óbvia. É quase como um tapa na cara, um “acorda para vida!”. Ela é capaz de desvendar alguém. Não é que o dizer seja assim tão ruim, é que a palavra escrita tem o tempo necessário para ser corrigida e raciocinada. Ela é a palavra a ser dita tomando forma. Escrevo porque me parece mais simples. Não exige esforços das cordas vocais e preocupações com a entonação. A pontuação dá o tom àquilo que se escreve e cada um interpreta como quiser. Escrevo pois ainda acredito poder alcançar mais corações do que minha voz jamais alcançaria. E o faço na esperança de continuar viva dentro de cada sílaba minha, enquanto as palavras ditas vão embora com o vento depois que os ouvintes partirem. Escrevo porque não me cabe tanto sentimento e estes não me passam pela garganta. Escrevo porque sobrei no mundo como Macabéa. E o mundo sobrou para ser descrito por mim. Porque sempre senti necessidade de dividir e, desta forma, distribuo pedacinhos meus por aí. Escrevo porque é a maneira que encontro de espalhar meus medos e alegrias como grãos de pólen. Porque vivo de palavras e as palavras brotam de mim.”
 — rio-doce
 
 
 
 
 
 
imagem: volume-maximo.blogspot.com