Adimite-se que a vida é um ponto. Cada um enxerga o seu de acordo com sua percepção, que é afetada por fatores genéticos, históricos, geográficos, psicológicos... Tal ponto, qualquer que seja, tem o mesmo tamanho se observado de fora, mas visto de dentro ele tende ao infinito. A vida individual, tal como analisada, passa a ser relativamente variável e imutável, tudo ao mesmo tempo. Uma contradição.
Admite-se que a vida é um ponto. Visto de fora da Terra, esse ponto se mostra como um caótico equilíbrio entre as espécies vivas no planeta. Porém, por outra perspectiva a vida consegue ser caracterizada como uma maneira inteligente e acelerada do universo melhorar a si mesmo. É uma questão de tentativa e erro. Se esse processo for consciente, já é uma contradição, pois inicialmente não haveria inteligência consciente sem que houvesse uma outra que a criasse. Se não for consciente, vira uma improbabilidade, já que envolve tomadas de decisões sequenciais e infinitamente improváveis que resultam em uma complexidade assustadora. Pois bem, o conceito de vida se torna uma provável improbabilidade, ou seja, uma contradição.
Adimite-se que a vida é uma contradição. Do ponto de vista lógico, as contradições não deveriam existir, pois não adimite-se que um fato pode conter mais de uma verdade. Um ponto não pode ser um e dois ao mesmo tempo. Entretanto, existe uma diferença enorme entre idealizar que contradições não deveriam existir e observar que, queira a lógica ou não, elas existem e fazem parte daquilo que nos rodeia. Admitir que a visão que temos de um ponto diz muito pouco sobre o ponto e em nada modifica o ponto em si, ou seja, querer estabelecer verdades para o mundo objetivo ajuda bastante a estabelecer conceitos, ciências e regras pra melhor entendimento da enorme complexidade que nos rodeia, mas ao nos limitarmos aos pontos de vista da lógica convencional, estaríamos fechando os olhos para o entendimento e preservação da vida nesse minúsculo e pálido ponto azul.
A percepção humana limita o ponto que chamamos de lógica apenas àquilo que conseguimos observar e/ou reproduzir. O ser humano ainda não admite que seu corpo é capaz de perceber apenas uma parcela dos fenômenos físicos que o rodeia a todo instante, e que enquanto não consegue tecnologia suficiente para ajudá-lo a transpor as limitações naturais do corpo, sua mente altamente imaginativa é a chave para propor diversos pontos de vista imaginativos que mostram os pontos em infinitos ângulos e posições, onde um único ponto poderia ser vários ou nenhum, e assim a vida poderia deixar de ser um ponto e passaria a ser uma linha bidimensional, em seguida um objeto tridimensional...
Por este ponto de vista, a vida não seria um produto do universo, mas sim seu processo mais refinado de descobrir-se, entender-se e evoluir.
2 de junho de 2016
Caco de Espelho
Ninguém liga. Tudo aquilo que mais te preocupa; tudo o que te tira da cama a cada manhã; as coisas para as quais você se dedica diariamente a reforçar para que não desmoronem; tudo isso que te sufoca e que, no fim, você percebe que dedicou a vida inteira em prol, acaba se mostrando sem sentido algum, e ninguém nunca deu a mínima.
O mundo está cagando pros seus caprichos. Você é um número virtual e estatístico pro seu país e pra sua cidade. Sua família sempre te achou um merda sem futuro. Seus amigos estão ocupados demais pra ouvir seus lamentos, já que tem que se preocupar em não serem merdas pras suas famílias e mulheres. Sua mulher te acha um merda maior ainda e te trocaria por qualquer merda mais cheirosa. Você é tão merda que não sente seu próprio fedor e ainda fica se remexendo na esperança que alguém te elogie. Sua vida de merda não vale nada pra ninguém além desse seu ego estúpido que clama por um reconhecimento que não vale um mísero centavo.
Em resumo, você é um fodido. Está totalmente sozinho e perdido num ambiente hostil e escuro, com medo dos predadores que urram e com mais medo ainda de abrir os olhos pra não ter que enfrentar a realidade. Um cego no tiroteio que não sabe o que é uma arma e nem quer aprender. Aprendeu a aceitar ser um merda e vive pensando ser um Rei, mas que de tanta vaidade não enxerga a cara da derrota no detalhe do espelho. Não vê porque não quer, não ouve porque espera que alguém ligue e não fala porque... ninguém liga.
O mundo está cagando pros seus caprichos. Você é um número virtual e estatístico pro seu país e pra sua cidade. Sua família sempre te achou um merda sem futuro. Seus amigos estão ocupados demais pra ouvir seus lamentos, já que tem que se preocupar em não serem merdas pras suas famílias e mulheres. Sua mulher te acha um merda maior ainda e te trocaria por qualquer merda mais cheirosa. Você é tão merda que não sente seu próprio fedor e ainda fica se remexendo na esperança que alguém te elogie. Sua vida de merda não vale nada pra ninguém além desse seu ego estúpido que clama por um reconhecimento que não vale um mísero centavo.
Em resumo, você é um fodido. Está totalmente sozinho e perdido num ambiente hostil e escuro, com medo dos predadores que urram e com mais medo ainda de abrir os olhos pra não ter que enfrentar a realidade. Um cego no tiroteio que não sabe o que é uma arma e nem quer aprender. Aprendeu a aceitar ser um merda e vive pensando ser um Rei, mas que de tanta vaidade não enxerga a cara da derrota no detalhe do espelho. Não vê porque não quer, não ouve porque espera que alguém ligue e não fala porque... ninguém liga.
Fumaça na Neve
Imagino os dias quentes e carnavalescos
E as úmidas noites francesas
Percebo um suave sorriso em sua boca
E desejo seu brilho molhado
Imagino nossa casa mal arrumada
A carteira esquecida na sala
E a gente atrasando outra festa
Pois nunca resisto ao seu brilho
Imagino a caixa de correio
E o cheiro de piscina no ar
Que te atrapalha a focar na carta
Que ainda não acabou de ler
Imagino a minha reação ao te ver
Percebo em mim uma sensação conhecida
Pois toda vez que te vejo
Ela bate bem forte no peito
É que basta olhar pro futuro
Pra imaginar aquele nosso mundo
Tão imperfeito como a noite dos sonhos
E tão perfeito como o calor úmido dos nossos corpos em contato
Imagino, por fim
Sua pele de neve macia
O seu toque
Sua magia
Que me traz o tesão pela vida
No calor que o atrito provoca
Toda vez que seu corpo me toca
E as úmidas noites francesas
Percebo um suave sorriso em sua boca
E desejo seu brilho molhado
Imagino nossa casa mal arrumada
A carteira esquecida na sala
E a gente atrasando outra festa
Pois nunca resisto ao seu brilho
Imagino a caixa de correio
E o cheiro de piscina no ar
Que te atrapalha a focar na carta
Que ainda não acabou de ler
Imagino a minha reação ao te ver
Percebo em mim uma sensação conhecida
Pois toda vez que te vejo
Ela bate bem forte no peito
É que basta olhar pro futuro
Pra imaginar aquele nosso mundo
Tão imperfeito como a noite dos sonhos
E tão perfeito como o calor úmido dos nossos corpos em contato
Imagino, por fim
Sua pele de neve macia
O seu toque
Sua magia
Que me traz o tesão pela vida
No calor que o atrito provoca
Toda vez que seu corpo me toca
5 de fevereiro de 2016
Vício
O dia começa e já me vejo lá
O sorriso bobo me entrega
Quando um simples bom dia
Dá sentido ao que quer que eu faça
Na tarde branca eu a toco de longe
Me equlibrando em passos curtos
Não ouso correr nem parar
Pois é certo que ela me aguarda
A noite chega escondendo a luz
Mas ela sempre veste um perfume claro
Que meus lábios lêem alucinados
Tão mísicos são seus sinais
Ao fim da noite e da dose quente
Como um viciado feliz
Acelero até meu aconchego
Só pra sonhar o dia seguinte
Como se já não fosse um sonho
Amar alguém assim
O sorriso bobo me entrega
Quando um simples bom dia
Dá sentido ao que quer que eu faça
Na tarde branca eu a toco de longe
Me equlibrando em passos curtos
Não ouso correr nem parar
Pois é certo que ela me aguarda
A noite chega escondendo a luz
Mas ela sempre veste um perfume claro
Que meus lábios lêem alucinados
Tão mísicos são seus sinais
Ao fim da noite e da dose quente
Como um viciado feliz
Acelero até meu aconchego
Só pra sonhar o dia seguinte
Como se já não fosse um sonho
Amar alguém assim
7 de janeiro de 2016
Antes de dormir
Por Jefferson Veloso.
O amanhã é o verdadeiro sonho
De ir além do que já quero
Esperando uma luz que suponho
Ver dos olhos de quem talvez
nem espero
Mas que de um riso sincero
Me faça realmente enxergar
O que a vida me reserva
A muito tempo
Antes de dormir
Prometo sempre não ter preguiça
E mesmo que de pirraça
Ela venha a acontecer
Que me sirva de lição
Já se foi mais um dia
Ah! Quem me dera ideias surgissem como palavras
Que mesmo sem nexo ou outra fazem algum sentido
Pelo simples fato de aparecer em um verso simplório
De frases e fases de uma vida sem título
Dormir cedo para acordar mais cedo
Ou pra ter mais tempo de Sol.
O amanhã é o verdadeiro sonho
De ir além do que já quero
Esperando uma luz que suponho
Ver dos olhos de quem talvez
nem espero
Mas que de um riso sincero
Me faça realmente enxergar
O que a vida me reserva
A muito tempo
Antes de dormir
Prometo sempre não ter preguiça
E mesmo que de pirraça
Ela venha a acontecer
Que me sirva de lição
Já se foi mais um dia
Ah! Quem me dera ideias surgissem como palavras
Que mesmo sem nexo ou outra fazem algum sentido
Pelo simples fato de aparecer em um verso simplório
De frases e fases de uma vida sem título
Dormir cedo para acordar mais cedo
Ou pra ter mais tempo de Sol.
10 de dezembro de 2015
Bença, vó
Por Jéfferson Veloso.
Era um garoto.
Moleque. Mais uma criança. Filho de dois perdidos por aí, no mundo. Cresceu
forte, à base de alimento e suor da família, no decorrer do tempo que passava
em seu dia a dia.
Mãe trabalhadeira,
mulher forte, mais uma guerreira.
Pai motorista, subindo e
descendo serras e ladeiras, na boleia dos caminhões de todo tipo de dono.
Todo santo
Biotônico de cada dia, fazia dar fome àquele menino, que comia e que crescia.
Fez nascer no sangue das veias, um pulsar ativo, de mais uma criança que só queria brincar de bola de gude, bola de meia.
Bendito
líquido preto, amargo e forte, sua avó quem apresentara. Droga lícita, desde a
infância consumida, hoje pra ele, se torna necessária. Pois o faz lembrar de alguém da
família, vovó Aparecida, que para explicar a falta que sentia, faltam-lhe poucas
e boas palavras.
Vovó
Aparecida. Indiazinha criada na roça. Sem muitas noções de vida, com seu
sorriso sempre trazia uma boa prosa, “quentand’no Sol’iôtrodia”. Antes pegar o sol que já
nascia n’outro dia, vovó Aparecida assistia Teletubbies enquanto a água do café
esquentava. Era pão de queijo, bolo, pão de sal e margarina que ela, com muito amor
envolvido, preparava, por ter o prazer de ter acordado mais um dia.
O garoto não
sabia o porquê, mas em sua cabeça vez ou outra criava a vontade de perguntar à mãe:
“Posso
ir na vovó Aparecida?”
“Pode, mas quando voltar, “compra” pães.”
“Pode, mas quando voltar, “compra” pães.”
E ele lá ia,
correndo ou de bicicleta, ver vovó. Porque ela era legal com ele. Porque ela
havia deixado um copo cheio de café esfriando pra ele quando chegasse. Porque
ela deixava ver desenhos até a hora do almoço sem ter que lavar as vasilhas, pois pra ela, criança não gostava de lavar vasilhas.
E
principalmente, porque de felicidade e curiosidade ele ria, de ver uma dona velhinha
gargalhando sem vergonha de mostrar a falta de dentes, e ele com vergonha
porque estava de janelinha. Era uma amizade livre e segura, que sabugos de
milho por ventura, que por sua avó lhes foram entregues, para virar nas mãos do
garoto, uma grande historinha de aventura. Era ela quem lhe dava tudo que podia, mesmo que para ele, nada precisava para estar em sua companhia.
“Vai
no armazém e compra amendoim pro seu vô”. Vovó sempre pedia.
“Oba! Vou comer amendoim com o vovô”. O garoto respondia.
“Oba! Vou comer amendoim com o vovô”. O garoto respondia.
Ele só queria
saber de vê-la todo dia, e depois da escola sempre corria para os braços da
vovozinha. Sua capacidade de apreciar os simples, seu afeto por coisas
pequenas, fazia valer à pena o passar dos tempos em sua casa. E na vovó, ia
e voltava, pois seja a hora que fosse o dia, parecia que, sempre, ela já o
esperava.
Bom, vovó, o garoto continua crescendo.
Continua parecendo criança que acabou de aprender a ler e escrever. Hoje
ele joga palavras ao vento de um vendaval de histórias, para uma estrela que
hoje brilha no céu.
A falta de uma avó, que hoje lhe vem na memória as
rugas de uma senhorinha banguelinha e sorridente. que acompanhava e ajudara a
criar o crescer de mais um bom menino, mais um de seus netinhos, que hoje é mais
um dos que de ti, sentem saudade.
Faz tempo que
ela deixou esse mundo. E só criança tem a completa certeza de que a vovó quando morre, sempre vai pro céu. Hoje a criança que habita em mim surgiu para fazer o garoto acreditar que por aí, em algum lugar, vovó ainda olha por ele. E por todos que
ela amava.
Estrelas são avós.
27 de novembro de 2015
O Véu
Ela estava deitada sobre a relva molhada, amarelada por um pálido e frio amanhecer. Seu corpo estava repleto de gotículas de orvalho, que lhe faziam cócegas na medida em que se espreguiçava... vagarosamente.
Seus dedos dos pés tocaram em florezinhas roxas, que ela sabia estarem ali esperando pela luz do sol para se abrirem. Sorriu. Também ela estava à espera do sol para florir.
Sentou-se num movimento quase em câmera lenta e olhou ao redor, recebendo no rosto o cheiro de um novo dia. Tudo o que via era a imensidão da natureza. O vale florido, as árvores frondosas e a floresta que se erguia escura a alguns pés de distância. Sempre se aproximou da entrada da floresta, decidida a, "dessa vez", aventurar-se por entre suas árvores longas e retorcidas, mas nunca levou a cabo suas intenções.
Naquele momento, entretanto, viu seu pés tocarem os galhos retorcidos da primeira árvore, depois da segunda, terceira, e muitas outras. A luz que iluminava seus cabelos acinzentados fora substituída por uma escuridão quase completa, recortada por alguns finos feixes de luz que conseguiam escapar pelo túnel de galhos retorcidos que se estendiam em direção ao céu.
Ela andou por um tempo que não soube definir, percebendo que não saberia mais encontrar a saída. Entretanto, aquilo não lhe era um problema. Respirava o ar frio da floresta como quem pela primeira vez inspira ar puro e verdadeiro. Sentia como se estivesse de volta ao lar, mesmo que nunca houvesse colocado os pés ali anteriormente.
Crack!, um galho seco se partiu com ruído, assustando-a mais que o normal. Ela olhou para o chão, abaixando-se devagar e notando não se tratar de um galho, mas de uma espécie de varinha, tão retorcida quando as árvores ao redor. Nunca fora de crer em contos de fadas, por mais propícios fossem a estas histórias os locais por onde crescera. Vales verdes e cheios de animaizinhos pequenos e exóticos, castelos e casas circulares, florestas negras e ameaçadoras. Eram tantas as histórias que ouvia desde criança que aos poucos elas, ao invés de se tornarem mágicas, foram ficando maçantes e sem graça.
Pegou delicadamente as duas partes quebradas da varinha e, mesmo sabendo que era de uma tolice infantil, encaixou-as, fazendo com que a varinha se tornasse una de novo.
Um líquido prateado escorreu pela emenda da varinha e a envolveu como um véu de seda. Ela não conseguia soltar o objeto, fosse por tamanho espanto ou por alguma coisa oculta que a fazia continuar segurando-a. O líquido escorreu para as suas mãos e aos poucos envolveu todo o seu corpo, com uma cócega fria e formigante.
Envolvida numa espécie de bolha, ela se sentiu sugada para dentro do sonho que tivera naquela madrugada. Uma mistura de vozes sussurrantes, mãos sem dono e uma canção infantil que a faziam se sentir muito bem. Seus pés já não mais tocavam o chão e ela era guiada pelas mãos indefinidas em direção ao desconhecido; uma rainha louvada por súditos fiéis.
O frio e o formigamento sessaram. Ela abriu os olhos e notou que segurava apenas a parte inferior da varinha. Olhou no chão ao redor, procurando a parte faltante, mas não conseguiu encontrá-la. Não havia vestígios do líquido prateado que a havia envolvido, nem mesmo a varinha agora parecia mais do que um mero galho partido. Resolveu guardá-la, contudo, como uma espécie de troféu de sua primeira andança pelas florestas.
| Imagem: http://www.culturamix.com/beleza/mulheres/musa-da-floresta |
Olhando para frente, notou que as árvores agora se abriam para um caminho relativamente largo e iluminado por uma cor azulada. Quase na linha do horizonte, ela avistava o pequeno castelo onde morava.
Recomeçou a andar, com os olhos fixos no castelo, mas deixando o pensamento naquele lugar que ela, pela primeira vez, considerava mágico. Pretendia buscá-lo depois.
Por Bia de SouZa
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