14 de fevereiro de 2015

O Pássaro

Amar você é deixar-te partir
Ver seus cabelos nas costas bater
No peito o frio da distância sentir
E quando sua voz não puder ouvir
Fechar meus olhos para os teus eu ver

Ter você é saber que não tenho
Sentir entre dedos o soprar do vento
Ouvir o cantar suave do pássaro
E com ele gorjear desalentos

Amar você é também te abandonar
Roubar teu antigo álbum de fotos
Talvez conhecer-te em outra vida
Com outro nome no velho olhar

Ter você é também me prender
Reservar parte do meu respirar
Para, contigo, tragar o luar

Ter você é tão só te amar
E te amar é jamais ter você
É estar louco pra te segurar
Mas partir te dizendo que parta
É velejar solitário em alto mar
Sabendo que terra firme não falta


10 de fevereiro de 2015

Se Ninguém Ganha

Mãos trêmulas esboçam a prece
Para que o amanhã me absolva
Por não ser quem o mundo exige
Por não poder jogar os dados
Das paixões que me rodeiam

Espero que o Sol se vá tranquilo
Que não o culpem quando noite
Do pecado de não pecar
De brilhar sem ofuscar
De ser grande e se esconder
E de negar seu brilho à lua
Quando não puder voltar

Muitos passos não existiram
Vez ou outra, pra trás foram
Para que a estrada não fosse estreita
Pra quem vinha ao meu lado

Muitos prazeres sufocados
Para poupar cicatrizes
Pois o dedo na velha ferida
Dói menos que um novo corte

Sou aquele que quase foi
Está indo e nunca será
Para que as crianças durmam
Perco o sono a vigiar

Que o descanso seja leve
Quando o destino vier cobrar
A palavra que perdeu a hora
A vida que perdeu a rota
Um quase beijo
Sem fruto
Sem futuro


3 de fevereiro de 2015

A São João



Com passos leves eu sigo
Caminhos tortos, antigos
De pedras maciças e ricas
De história e cantigas
Ambiente secular

Com olhos abertos
Bem grandes e fartos
Fotografo bem certo
Cada igreja, lampião
Lenda, construção
Meu divino e puro lar

Destes montes verdejantes
Respiro ar mais belo e claro
E se calo ante tua fonte
Das belezas que deixei

Volto a tempo de amar-te
Tão mais forte e intensamente
Colorida e almamente
Minha amada
És Del Rei


Por Bia de SouZa

2 de fevereiro de 2015

Mentes, Coração

Por Rafael Mota e Jefferson Veloso


Num futuro não tão distante
Algum neto de certo ouvirá
De algum velho falante
A estória que seguirá
De dois jovens andantes
Que viviam a sonhar

Sonhos de vida bendita
Mal ditos por terceiros
Mas bem dizia o sábio em Gita
No início, fim e meio:
Somos o amargo da língua
Nas caminhadas noturnas
Sem medo, sem freio

Duas sedentas crianças
Sem saber como crescer
Sem querer entrar na dança
Que todos pareciam saber
Mas criança nunca se cansa
E se arriscaram a viver

Criando histórias daquela certa vez
Que de vez em quando acontece sempre
De dois caminhos distantes
Que se unem mesmo ausentes
Que se separam quando se unem
Unindo passado, futuro e presente
Sintonia de coração e mente

Jovens vidas que se esgotam
Quebrando muros, erguendo pontes
De vigas que homens não notam:
Não se toca o horizonte
Estradas sem chão nem rotas
Paraíso atrás dos montes

Em viagens de toda espécie
Coisas novas aprendiam
Transformando em alicerce
O que plantavam, o que colhiam
Cultivando a velha prece
De que lado a lado correriam

Duas linhas, duas ilhas
Uma delas é sentimento
Verbo solto, irregular
Chamas sólidas ao vento
Adjetivo ultrairmão
Substantivo simples:
Coração

Do outro lado, subsequente
Caminha o louco prudente
Doentiamente são
Descendente do rei Salomão
Aqui se faz, aqui se sente
Corpo nu trajado de mente

Estória gravada nas curvas
Que o vento insiste em fazer
E a brisa por si continua
Em deixar tudo acontecer

Linhas que fazem poesia
Da arte que a amizade cria


28 de janeiro de 2015

:D



Me pego pensando em pleno verão
Em como sorrir é algo tão nobre
Sorriso quente, com cores bem fortes
Riqueza gratuita e sem contra-indicação

Sorrir sem motivo, sem eira nem beira
Deixar que os olhos se façam brilhar
Sorrir com motivo, pura brincadeira
Sentindo a pele se acalorar

O tempo: calor,  minh'alma: vermelha
Bronzeio meu Templo de Salomão
Tão forte respiro, meu corpo arqueja
Gargalho sem medo, com satisfação

Em versos inspiro, reverso me faço
Inverso me sinto, e verso em compasso
Sorrio portanto, por pura vontade
Só rio sentindo essa felicidade!

https://tempestadideias.files.wordpress.com/2013/08/sorriso-mundo-fortuna.jpg



Por Bia de SouZa

26 de janeiro de 2015

48 horas

Caberia conversas sobre Deus e o mundo
Num abraço fundir dois irmãos vagabundos
Caberia poemas sem caneta ou papel
E corpos errantes escalando Babel

Caberia dez anos de conversa estendida
Que fariam um dia parecer uma vida
Caberia o acaso apontando um sinal
Do perfeito equilíbrio entre o bem e o mal

Caberia a certeza da nossa ignorância
Ao lembrar de quem éramos quando criança
E conhecer novamente uma mesma pessoa
Que irradie na boca energia tão boa

Caberia sair por aí sem destino
Temendo o escuro feito dois meninos
Perceber que um lado não é só emoção
E que a outra metade finge ser pura razão

Transbordaria sorrisos de milhão de milhas
Mostrando que somos mais do que ilhas
Pios construindo pontes em pilares profundos
Se obtém solidez pra transformar o mundo

Afinal, quanta vida cabe em dois dias
Em dois alicerces, dois guias?
Afinal, quanta vida se gasta vivendo
E quanta morte se evita aprendendo?

Positivismo

Ah, se eu pudesse nadar no vento!
Saborear o céu e as nuvens
Alcançar a linha do horizonte
Viver cem anos num momento

Ah, se eu fizesse chover magia!
Pra fazer do meu corpo um laço
Apertar o mundo num abraço
E só haver choro de alegria

E se as árvores começassem a sorrir
Cada vez que uma gota caísse
E se a chuva secasse a fome
De quem mal consegue dormir

Ah, se eu soubesse fazer um poema
Que sanasse qualquer problema
Para criar um mundo perfeito
Daqueles cheios de defeitos
Pra que a realidade não sufoque
Os sonhos que pulsam no peito