8 de julho de 2020

A Jornada (Parte III)

Quando tom acordou, não havia mais ninguém. 




Há anos sem se encontrar, trilhavam seis passos pela juventude os quatro amigos de outrora. 


Joel e Rick vez ou outra se esbarravam na pan house de sua cidade natal, onde ainda residiam com seus respectivos pais, mas raramente as conversas pesavam de meros cumprimentos formais e perguntas sobre Tom e Carlos. 


Estes dois, por sua vez, haviam voltado à pequena cidade apenas duas vezes após se mudarem para longe a fim de continuarem os estudos. 


No caso de Carlos, por falta de recursos financeiros. No caso de Tom, por falta de recursos financeiros e de vontade. O primeiro agora mora na capital e o segundo mora em uma cidade de porte médio, longe da cidadezinha e da capital. 


Os quatro amigos nunca mais se reuniram depois do término no ensino médio. 


Numa conversa com Carlos pelo computador, Joel relembrou o amigo das vezes em que se reuniram na casa do Tom para formarem a liga dos descolados. Eles riram bastante comentando de quando brincavam de ter superpoderes: Joel controlava objetos com a mente, Rick atirava raios com as mãos, Carlos lia mentes e Tom congelava coisas com as mãos. Todos os dias a liga se reunia, criavam bordões, cenários, intrigas e fantasiavam um teatro muito divertido. 


Joel não pode perceber do outro lado da tela que Carlos estava aos prantos. Ele era o que mais demonstrava saudade da época em que podia confiar totalmente nos seus amigos e que podia vê-los todos os dias. Carlos estava há bastante tem isolado em casa estudando. Só conhecia o caminho de casa para a faculdade e vice-versa. 


Na mesma conversa os dois também concordaram sobre o quanto seria do caralho um reencontro da liga, mas ambos sabiam que era muito difícil devido ao desentendimento grave entre os outros dois integrantes por causa de Jéssica. Antes do fim daquele ano final de ensino médio ela deu um pé na bunda do Rick e fez de tudo pra transar com Tom, que recusou inúmeras vezes os convites mais tentadores, com muita dificuldade.


Mesmo assim Rick não engoliu a situação e até hoje não acredita na inocência de Tom. Joel e Carlos sabiam que o amigo não havia feito nada.


Joel comentou com Carlos que sentia que a vida fazia muito menos sentido naquela cidade sem ele e Tom, e que às vezes ele sentia que nem mesmo fazia sentido estar vivo, porque tudo se corrói. Para não pesar o clima, Joel digitou uma risada curta e disse que aquela conversa já o contradizia, já que a distância era relativa. Joel digitou mais uma risada em seguida. Do outro lado da tela, Carlos chorava mais uma vez. 


Depois de mais alguns minutos de conversa, Carlos disse a Joel que se tudo desse certo, no fim do ano ele estaria de volta para as penúltimas férias da maldita faculdade. Desta vez, ambos estavam sorrindo. Joel respondeu que estaria viajando com sua família, mas que faria o possível para visitar o amigo em sua formatura. 


Ambos se despediram e desligaram os computadores. 


Joel se deitou e, olhando para o teto, se imaginou fazendo a faculdade de arquitetura que tanto sonhou. Dormiu e acabou sonhando com gafanhotos. 


Carlos se deitou e, olhando para o teto, chorou pela terceira vez, imaginando a liga dos descolados crescendo e enfrentando os obstáculos da vida juntos e sorridentes. Cada sorriso que imaginava aumentava mais o seu choro. 




Carlos não dormiu aquela noite, mas ao amanhecer ele acordou. Havia um céu gordo e frio no horizonte, mas parecia renovado. 

14 de abril de 2018

A Jornada (Parte II)


Quando Tom partiu, ninguém o entendeu.

Terminavam o ensino médio na mesma sala os quatro colegas: Carlos, Rick, Tom e Joel. Sem tanto entusiasmo e aflitos por não saberem o que esperar do mundo a partir dali, ouviam suas músicas favoritas nos seus fones de ouvido, cada um com o seu, enquanto não acabava a entediante aula de física.

Aos 17 todos eles, com exceção de Carlos, já trabalhavam na pequena cidade em que viviam. A escola já tinha se tornado um saco há bastante tempo. Além disso, os quatro já haviam se distanciado bastante desde o episódio na ponte.

Carlos estava se dedicando integralmente aos estudos para passar em uma universidade federal e orgulhar seus pais. Rick começou um namoro conturbado com Jéssica e se destaca no seu emprego como mecânico na oficina do seu tio. Tom está aprendendo anatomia animal enquanto trabalha no açougue do seu Eustáquio e Joel faz de tudo para mostrar serviço como voluntário na igreja do centro, além de trabalhar na fábrica de reciclagem.

Reunidos novamente para uma das últimas festas da turma antes da formatura, a jornada continua. Ao juntar os quatro num canto, Carlos esboça uma comemoração:

- Aqui é terceirão, CARAAALHOO!

Joel responde com ironia em um grito baixo, sem empolgação e pra dentro:

- AÊeee! U-H-U-L

Todos riem e começam a conversar.

Enquanto todos escondem a ansiedade na forma de expectativa por mudar de cidade e finalmente entrar numa faculdade, Tom observa a cada um com um olhar de falcão. Até que, voando no assunto, é surpreendido por uma pergunta do Carlos seguida de um abraço e puxão pelo ombro. Nessa hora Tom acorda de sua análise minuciosa do mundo e diz:

- Vocês são foda! Bora chapar!

Todos com o copo na mão, inicia-se ali um primeiro ato de despedida.

Carlos observava com um olhar triste toda aquela festividade. Estava feliz, claro, com o término do ensino médio que se aproximava, mas sentia um grande aperto ao pensar que iria se distanciar dos seus amigos a quem tanto valorizava e ainda mais de Tom, seu velho e maior amigo. Nem gostava de pensar tanto nisso, mas era inevitável.

Joel também observava, mas por outro ângulo. Prestava atenção na hipocrisia das pessoas que se atacavam durante o ano e ali naquele momento se abraçavam. Observava alguns detalhes de como os professores ali presentes eram hipócritas ao reprimir a tagarelice dos alunos em sala de aula e falar tanto pelos cotovelos na festa. Joel passou a noite inteira prestando atenção nestes detalhes e só conseguiu se enfurecer.

Tom bebeu bastante. Ele observava a si mesmo como um estrangeiro e cada vez que se enxergava estranho dava mais um gole. E a cada gole ele parecia mais e mais estranho. Parecia querer fugir daquela situação e às vezes parecida nem mesmo querer estar ali presente. Já se via escalando montes mais altos e mais desafiadores.

Rick, por sua vez, ficou a festa inteira vidrado em Jéssica e nas pessoas das quais ela se aproximava. Até leitura labial ele fez. Apesar de um belo tipo físico e de ótima reputação entre as garotas da escola, Rick tinha uma autoestima baixa devido a problemas e traumas com seus pais. O que não era o caso de Jéssica. Extremamente narcisista, ela esbanjava um decote enorme em seu vestido vermelho e desfilava de salto pra lá e pra cá. Rick só observava seus passos, mas não o seu olhar.

Tom nunca contou pra ninguém além de Carlos a sua atração pela bela Jéssica. Apesar de parecer apenas um encanto puramente sexual como o que todos os garotos tinham por ela, Tom sentia que ali havia uma garota que pedia por socorro e que não queria aceitar ser um mero objeto de uso e desejo carnal. Desse modo, não conseguia desviar o olhar para a face da bela garota. E ela o retribuía, às vezes, com olhares provocantes e risos disfarçados.

Sem ligar para o que Rick pensaria, Tom, agora sob o efeito do álcool, fixava o olhar na garota e tentava decifrar o que nele havia de tão enigmático. Sorte a dele que Rick nem percebeu, pois estava ocupado olhando e desejando as amigas da namorada que se exibiam para ele como cães para adoção numa vitrine.

A noite avançou, os professores foram embora e ficaram os quatro amigos, Jéssica, a anfitriã e uns dois ou três colegas. A bebida tinha acabado e o som já estava tocando músicas bregas que ninguém gostava.

Rick logo partiu e, apesar de quererem ficar, o acompanharam Jéssica e Joel.

Carlos, já bêbado, voltou-se para Tom, mais bêbado ainda, e disse:

- Cara, não acredito que isso tá acabando!

Em tom provocativo e irônico, Tom questiona:

- Isso o que, cara?

Carlos sorri com o canto da boca. Depois olha pro céu e murmura:

- Será que viveremos isso novamente?

Tom afirma:

- Se um dia acontecer de novo quero que esteja ao meu lado, brother!

Por pouco Carlos não cai aos prantos. Ele sabia que seria um dos últimos momentos em que teria o grande amigo tão próximo.

Tom dá o último gole no Rum quente, se despede de Carlos e vai embora com as mãos no bolso da jaqueta.

Tom não apareceu em nenhuma das festas posteriores e nem mesmo na festa de formatura.

Carlos se deitou pensativo, olhando para o teto. Ele só conseguia pensar em quando aquela noite iria se repetir.

Tom se deitou igualmente satisfeito e, também olhado para o teto, ele só conseguia pensar nos seus próximos passos longe dali.

Exaustos, adormeceram com um sorriso no rosto. Então mais um dia teve fim, mas a jornada mal havia começado.



3 de janeiro de 2018

Flautista

A vida é um sopro. Uma brisa pequena, constante e quente no início... forte e radiante no meio.... fria e dispersa no fim.

Sempre que você se ilude de que é você quem dá as cartas ela vira o jogo e embaralha tudo novamente. O sabor de uma pequena vitória pode cegar até o mais esperto dos jogadores, mas nada muda o fato de que estamos perdendo, dia após dia, a disputa com a nossa vida.

A cada respiração ela fica mais curta e todos tentamos não pensar nisso porque não queremos estragar a ilusão de que estamos no controle.

O tempo passa depressa e leva consigo todas as vitórias ilusórias, deixando apenas as marcas, cicatrizes e lembranças de quem fomos um dia. A cada dia somos pessoas diferentes. Cada tropeço, cada acerto, cada sorriso e cada gota de lágrima transforma quem somos de modo irreversível.

Porém, todos os dias temos novas oportunidades para reparar ou amenizar erros do passado e, mais que isso, aprender e se apoiar neles para tomar novas e melhores atitudes. Temos tempo também para contemplar e agradecer pelo novo ser que acordou e que pode sim ser melhor que o ser que foi dormir ontem.

É engraçado olhar pra dentro de si nos momentos de desespero e observar o quão frágil é cada um de nós e o quão duro é o caminho de cada ser humano. Cada um reage de acordo com a sua essência e com aquilo que acredita.

Após cada queda nasce um ser mais vivo do que antes, porque ao se levantar a vida te encara de frente, e não há aquele que não tenha medo. E o medo e a dor também nos fazem mais vivos. De pé novamente a gente junta os cacos e volta a andar.

A noção de que o sopro vai se desfazer a qualquer momento nos ajuda a nortear cada passo dado, bem como todo o aprendizado com os erros e acertos. Assim, quando nos sentimos completos e cheios de vida através de experiências boas e ruins, podemos pensar na utilidade desse sopro e no seu propósito.

Alguns o direcionam para apagar velas, outros para velejar. Alguns sopros tocam de leve a pessoa amada e outros a arrasam como furacões. Alguns aceleram o giro do globo enquanto outros sopram ao contrário. O fato é que todos eles vão se esfriar e desaparecer, mas nada deve ser desesperador quando nos sentimos completos.

A vida é um sopro e, se você está respirando, já tem motivos de sobra pra agradecer ao flautista.



Aponte

Me diga como você tem certeza
Se está buscando ou está fugindo
Se está miando ou está rugindo
Enquanto põe as cartas na mesa

Me diga como você saberia
Se o sorriso era falso ou verdadeiro
Se seria amor ou só passageiro
Sem arriscar uma travessia

Me explique o que seria da vida
Se toda flecha acertasse o alvo
Se todo injustiçado fosse salvo
Se alguma ordem fosse mantida

Me aponte então o melhor caminho
Se não aquele em que sigo sozinho
Me mostre apenas algum sentido
Na árdua rota que tem seguido
Me aponte no mapa um X
E na história um final feliz

Me encontre e não se despeça
Pois nesta vida não me interessa
Se é chegada ou se é partida
Desde que a ponte seja mantida
E que eu aprenda que a cada dia
Preciso ousar novas travessias


1 de junho de 2017


Carpe Diem

Stress do dia-a-dia, correria, agitação, problemas pessoais... Esqueça tudo, estou te convidando a pensar sob uma nova perspectiva:


Viagem: já pensou que o modo como somos hoje, o mundo, a consciência que temos de nós mesmos e nossa relação com o mundo é fruto do acaso?  Comecemos pelo início de tudo, uma das maiores inquietações humanas, sobre o começo do mundo e da vida, muitos atribuem um sentido metafísico: Deus(es?). Mas parto de uma visão científica: recombinações ao acaso, erros e acertos e todas as condições que contribuíram para o surgimento da vida na terra... Milhões de anos, milhões de tentativas, e hoje estou aqui com minha consciência, este é o meu mundo.

Entre tantas galáxias, tantos planetas (seria egoísta se não considerasse vida neles), tantas espécies no meu planeta, tantos indivíduos na minha espécie, tanta matéria e energia: sou insignificante.

Às vezes me pego pensando sobre a perfeição das coisas, a perfeita harmonia que faz o mundo funcionar (lógico, fugindo da percepção caótica de problemas da humanidade). Posso comparar a nível microscópico e macroscópico, individual ou universal, como cada elemento tem seu papel e a dependência desses elementos para a minha própria existência. A organização de cada átomo, o papel de cada organela em uma célula, de cada célula em um organismo, de cada sistema em um indivíduo, de cada indivíduo em sua espécie, em seu ecossistema, em nosso planeta por fim.

O que sou agora depende dos eventos que ocorrem em minha vida e a relação com o ambiente e a sociedade, minha personalidade está em constante mudança, a minha genética e vivências me tornaram diferente de qualquer ser no mundo: Nessa perspectiva sou especial.

Gosto de pensar sob essa perspectiva. Que cada indivíduo, cada elemento nesse planeta pode ocasionar mudanças significativas. A vida é bela e estar consciente disso também o é. Estamos sempre buscando significado para tudo... Que tal nos esquecermos por algum tempo de nossas inquietações e incertezas mais profundas e finalmente acordar para o presente e aproveitar esse breve espaço de tempo que é a vida?

31 de maio de 2017

Passagem


É terça-feira​ de outono. Eles avisam que estão na cidade e antes de você decidir se irá ou não recebê-los eles batem três vezes na sua porta de madeira. Sem muita escola você abre e, logo após, a abraça um por um matando a saudade.

Você serve um chá é a conversa flui. Eles te conhecem muito bem e você reconhece todos os rostos, mas eles vestem casacos de pele e cachecóis febris que parecem antecipar a próxima estação.

Após espalharem seus trapos pelos quartos você os convida pra dar uma volta, mas ninguém está muito afim.

"Sábado vamos todos ao clube. Agora senta aí e desce mais uma cerveja!", diz o mais preguiçoso.

Pelo jeito eles vieram pra ficar mais tempo dessa vez. Sete demônios ocupando a sua casa e você demonstra um leve desconforto, mas logo imagina que poderia ser bom fugir um pouco do tédio e então toma mais um gole.

Hoje você dormirá com um deles, o mais belo e tentador, e amanhã sairá pra caçar com o mais forte e inconsequente. Até o dia em que Deus voltará das férias você irá seguir seus instintos saboreando cada momento de prazer.

Quando de fato Ele voltar, você irá jurar que ainda é o mesmo pra Deus e o mundo. Pode até ser que convença seu parceiro ou os seus pais, mas Ele encontrará os trapos fétidos e as garrafas vazias esquecidas na garagem.

Assim que souber da sua sentença você terá frações de segundo para decidir entre seguir viagem atrás dos seus demônios ou receber o castigo divino e pagar pelos seus pecados.

Vez ou outra nossas vidas são feitas de encruzilhadas para as mais diversas escolhas, mas nem sempre a razão está em casa.

Anjo ou demônio? Depende de quem bate na porta.

6 de abril de 2017

Camuflagem

       As páginas em branco da agenda do ano passado levaram para o fundo da gaveta todos aqueles planos que ninguém viu crescer. Lá no fundo fazem companhia ao álbum de fotos empoeirado e incompleto de 2012, com espaços vazios para os registros dos momentos especiais nunca vividos. Nas linhas em branco do diário do ano seguinte, sob o álbum, escondem-se todos os olhares que minhas mãos não souberam descrever. 

       Em meio a bagunça do meu quarto a estante foi a única coisa que permaneceu no lugar desde então. Ali dentro, discreta, camufla-se a terceira gaveta. Raramente a abro e, quando o faço, nunca encontro a mesma coisa. A agenda, o álbum e o diário sempre estão no mesmo lugar, mas os registros ali depositados às vezes me dizem muito mais que o óbvio. Toda vez que visito as páginas em branco, os espaços para fotos e as linhas vazias tenho a sensação de que uma versão de mim se perdeu para sempre. 

       Parece triste e nostálgico pensar assim - e de fato é - mas é também uma forma de me alertar sobre o valor das linhas que escrevo e dos momentos que ando registrando na bagunça da minha cabeça, na gaveta número 3. 

       Quais registros eu quero no velho álbum empoeirado que mostrarei para as visitas? Quais os planos para a agenda da semana que vem? Talvez eu encontre as respostas no futuro, lendo o diário do dia de hoje ou, quem sabe, esta nota. Contudo, como fazem as visitas ao fuçar o álbum de fotos, vou ignorar os espaços vazios.


23 de dezembro de 2016

A Jornada (Parte I)

Quando Tom deu as costas, ninguém o entendeu.

Caminhavam sem rumo e lado a lado os quatro amigos: Carlos, Rick, Tom e Joel. Numa aparente harmonia por uma calma estrada de terra, cantavam suas músicas favoritas que não fugiam muito de um Pop Rock inofensivo e romantizado. Vomitavam banalidades enquanto descobriam suas verdadeiras identidades longe da simulação civilizada. Tudo como tinha que ser para os garotos da oitava série, até que Tom simplesmente se cala e, logo depois, fica dois passos à frente sem olhar pra trás. Com uma cara de espanto, o garoto começa a olhar atento a cada detalhe da paisagem seca que o rodeia: a cerca de arame farpado que delimita a estrada, o cascalho e as crateras no chão, as vacas e gramas secas e imóveis ao redor... confusos, seus amigos esboçam risadas sem graça seguidas de olhares desconfiados e ombros pra cima.

A jornada continua e a conversa toma rumo mais uma vez com os três falando sobre as garotas da escola. Rick começou se gabando:

- Ontem a Jéssica veio sentar do meu lado. Vou chegar junto semana que vem! HEHEHE

Joel responde com uma leve gargalhada:

- Semana que vem não tem prova de matemática de novo, mané! HAHAHA. E ela só dá bola pra galera do terceiro, todo mundo sabe!

Enquanto isso, Carlos tenta chamar a atenção de Tom, que se afasta um pouco mais do bando:

- E você Tom, o que conversava com ela ontem?

Tom se vira com um olhar distante e lateral, como se analisasse o chão a metros dali, e responde calmamente:

- Ela veio me perguntar se eu a achava bonita.

"Caralho, sério? E o que você disse, cara?", questionou o amigo.

Tom se vira pra frente, dá de ombros e diz:

- Falei o que ela queria ouvir, óbvio!

Depois disso, o garoto não se virou mais. A passos largos ele se distanciava cada vez mais e parecia cada vez mais ansioso. Os amigos pararam de tagarelar e foram mais depressa pra não perdê-lo de vista. Sem se virar, Tom alerta os amigos:

- Galera, vocês sabem que nunca passamos daqui. Estamos longe e logo vai anoitecer, mas eu preciso descobrir por que meu pai me disse pra eu nunca vir pra essas bandas. Me deixem aqui, prometo ficar bem e contar pra vocês amanhã na aula o que tem  de tão proibido.

Joel respondeu:

- Ouvi dizer que tem uma ponte de madeira quebrada alguns quilômetros pra frente.

Rick confirma:

- É, dizem que é mal assombrado. Não vai nos meter em mais uma fria, né Tom?

Carlos também comenta:

- Meu irmão me disse que é um lugar onde algumas pessoas se suicidaram no passado. Um desvio pelo vale foi construído pelos fazendeiros que precisavam atravessar e a ponte nunca foi restaurada. Eu vou contigo, Tom! Não é seguro ficar aqui sozinho e... sua mãe me mata se chego lá sem você.

Rick esbraveja:

- Vocês são malucos mesmo! Só querem ser os "rebeldezinhos" pra depois contar vantagem. Pra mim já deu! Bora Joel?!

Confuso, Joel decide voltar com Rick pra casa, embora tivesse vontade de ficar com os amigos e ver o que realmente tinha mais à frente. Rick respira aliviado com a decisão do colega, já que estava morrendo de medo de voltar sozinho pela estrada vazia.

Continuando a jornada, Tom e o inseparável Carlos correram atentos. O primeiro atento a tudo, com olhar de euforia e determinação e o segundo atento ao primeiro, com olhar de incompreensão e admiração. Carlos demonstra ainda não entender os motivos de seu amigo:

- Por que exatamente você decidiu correr esse risco, mano? Pode ser perigoso demais andar por aqui à noite!

Tom responde com uma pergunta em tom provocante:

- Me diz por que é que você resolveu correr esse risco?

Carlos engoliu a saliva e permaneceu calado por alguns segundos, sem saber ao certo a resposta. Logo, Tom continuou:

- Pra cada um, sempre vai ter algo que valha a pena o risco. Pode ser alguém, pode ser uma coisa ou pode ser você mesmo. No meio do caminho eu me lembrei que você sempre me questiona em tudo, por isso resolvi questionar também o meu pai. Afinal, se ele sabe que eu não posso vir aqui é porque provavelmente ele mesmo já veio. E ele está vivo, não está? 

Carlos balançou a cabeça pra cima e pra baixo e seguiram adiante. A noite já tinha chegado faz tempo e os dois garotos, já exaustos, avistaram a ponte quebrada. 

"Não é tão assustador!", ironizou Tom.

Os garotos foram até a ponte, analisaram ao redor, olharam pra baixo e tudo o que se via era uma água calma de um rio quase morto. Mais se ouvia do que se via, é verdade, mas incrivelmente eles nem estavam mais com medo. Sentaram-se na beira, lado a lado, e olhando pro céu estrelado Tom perguntou:

- O que será que tem depois de todas as estrelas? Digo, tem que ter alguma coisa, não é mesmo?

Carlos se virou pro amigo, respirou fundo e disse:

- Trouxe algo pra comer? Tô morrendo de fome!

Depois de dar boas risadas os dois tomaram o caminho de volta. O papo fluiu despreocupado e bem humorado durante todo o caminho. Nem sobrou tempo pro medo do escuro ou das palmadas das mães quando chegassem em casa.

Cada um em sua casa, se explicaram, se desculparam com os pais, comeram, tomaram banho e foram dormir. O mesmo ritual parece ter despertado a mesma sensação nos dois. Olhando para o teto, Carlos pensou consigo mesmo: "Que dia foda! Tomara que amanhã chegue logo pra rever meus amigos!". Na mesma posição mas sob tetos diferentes, Tom também refletiu: "Nunca me senti tão bem. Preciso me aventurar assim mais vezes!"

Exaustos, adormeceram com um sorriso no rosto. Então finalmente o dia teve fim, mas a jornada só estava começando.





14 de setembro de 2016

Carta rimada

por Jefferson Veloso.

Não precisa de jornal para saber o acontece
Não preciso de igreja para rezar a minha prece
Prefiro ir pra rua e sofrer as consequências 
Do que ficar em casa alimentando minhas demências

As redes sociais ditam novas regras
Criando novas visões p'ressa sociedade cega
Que não enxerga um palmo na frente do nariz
Cagando e andando no próprio chafariz

Esperando a verdade suave, nua e crua
Lendo boas frases nos cartazes da rua
Esquecendo a realidade ilusória já criada
Depois dos goles de cerveja bem gelada

Esquece o que viu por que não enxergou
Esquece o que o seu profeta pregou
Esquece de viver pouco como M. Monroe
Pra viver muito, como ave que não quer voo

Pessoa de sangue guerreiro
Rolê na quebrada é o que é
Faz seus corres, faz seu dinheiro
Depois procura o que você quer
Pra não ser mais um rato qualquer
Correndo sempre no mesmo bueiro

Sem pressa, sem espera e sem medo
Segue na luz do seu caminho
E não penses em chegar lá muito cedo
Fique rico de jornadas
Caminhadas de investimento

E se o tempo me der um tempinho
Corro em sua casa pra te dar um beijo
Só não sei se amanhã eu te vejo
Pois mesmo selvagem, me faço mansinho




2 de junho de 2016

Poesia da Ciência e Vice-Versa

Deus é o matemático
Com lógica distorcida
E ciência nada prática

Deus é o cientista
Com olhar infantil
E visão de artista

Deus é o humorista da tragédia
Escondido em cortinas teatrais
Sem talento pra comédia

Deus é o pintor de auto-retratos
Com tinta binária virtual
Pintando só seu quadro geral

Deus é o viajante
Um preciso navegante
Quando viver não é preciso

Deus, então, é o poeta
Vivendo e morrendo em linhas
Tão tortas quanto as minhas


Papel Picado no Teatro dos Homens

Ao sair da jaula no trabalho, o homem exausto reflete: o dia, que leva embora meu tesão, fez o homem ver o homem.

Ao passar pelos homens na obra, o homem de fora observa: o dia, que nunca acaba de fato, fez o homem ler o homem.

Ao tragar no bar da esquina, o homem delirante resmunga: o dia, que amarga a cerveja e a vida, fez o homem fantasiar o homem.

Ao deitar solitária com o homem, a mulher aos prantos suplica: ó homem, que prostitui o dia, faça o homem, seja homem, sem fingir que o homem não se vê.


...

Adimite-se que a vida é um ponto. Cada um enxerga o seu de acordo com sua percepção, que é afetada por fatores genéticos, históricos,  geográficos, psicológicos... Tal ponto, qualquer que seja, tem o mesmo tamanho se observado de fora, mas visto de dentro ele tende ao infinito. A vida individual, tal como analisada, passa a ser relativamente variável e imutável, tudo ao mesmo tempo. Uma contradição.

Admite-se que a vida é um ponto. Visto de fora da Terra, esse ponto se mostra como um caótico equilíbrio entre as espécies vivas no planeta. Porém, por outra perspectiva a vida consegue ser caracterizada como uma maneira inteligente e acelerada do universo melhorar a si mesmo. É uma questão de tentativa e erro. Se esse processo for consciente, já é uma contradição, pois inicialmente não haveria inteligência consciente sem que houvesse uma outra que a criasse. Se não for consciente, vira uma improbabilidade, já que envolve tomadas de decisões sequenciais e infinitamente improváveis que resultam em uma complexidade assustadora. Pois bem, o conceito de vida se torna uma provável improbabilidade, ou seja, uma contradição.

Adimite-se que a vida é uma contradição. Do ponto de vista lógico, as contradições não deveriam existir, pois não adimite-se que um fato pode conter mais de uma verdade. Um ponto não pode ser um e dois ao mesmo tempo. Entretanto, existe uma diferença enorme entre idealizar que contradições não deveriam existir e observar que, queira a lógica ou não, elas existem e fazem parte daquilo que nos rodeia. Admitir que a visão que temos de um ponto diz muito pouco sobre o ponto e em nada modifica o ponto em si, ou seja, querer estabelecer verdades para o mundo objetivo ajuda bastante a estabelecer conceitos, ciências e regras pra melhor entendimento da enorme complexidade que nos rodeia, mas ao nos limitarmos aos pontos de vista da lógica convencional, estaríamos fechando os olhos para o entendimento e preservação da vida nesse minúsculo e pálido ponto azul.

A percepção humana limita o ponto que chamamos de lógica apenas àquilo que conseguimos observar e/ou reproduzir. O ser humano ainda não admite que seu corpo é capaz de perceber apenas uma parcela dos fenômenos físicos que o rodeia a todo instante, e que enquanto não consegue tecnologia suficiente para ajudá-lo a transpor as limitações naturais do corpo, sua mente altamente imaginativa é a chave para propor diversos pontos de vista imaginativos que mostram os pontos em infinitos ângulos e posições, onde um único ponto poderia ser vários ou nenhum, e assim a vida poderia deixar de ser um ponto e passaria a ser uma linha bidimensional, em seguida um objeto tridimensional...



Por este ponto de vista, a vida não seria um produto do universo, mas sim seu processo mais refinado de descobrir-se, entender-se e evoluir.

Caco de Espelho

Ninguém liga. Tudo aquilo que mais te preocupa; tudo o que te tira da cama a cada manhã; as coisas para as quais você se dedica diariamente a reforçar para que não desmoronem; tudo isso que te sufoca e que, no fim, você percebe que dedicou a vida inteira em prol, acaba se mostrando sem sentido algum, e ninguém nunca deu a mínima.

O mundo está cagando pros seus caprichos. Você é um número virtual e estatístico pro seu país e pra sua cidade. Sua família sempre te achou um merda sem futuro. Seus amigos estão ocupados demais pra ouvir seus lamentos, já que tem que se preocupar em não serem merdas pras suas famílias e mulheres. Sua mulher te acha um merda maior ainda e te trocaria por qualquer merda mais cheirosa. Você é tão merda que não sente seu próprio fedor e ainda fica se remexendo na esperança que alguém te elogie. Sua vida de merda não vale nada pra ninguém além desse seu ego estúpido que clama por um reconhecimento que não vale um mísero centavo.

Em resumo, você é um fodido. Está totalmente sozinho e perdido num ambiente hostil e escuro, com medo dos predadores que urram e com mais medo ainda de abrir os olhos pra não ter que enfrentar a realidade. Um cego no tiroteio que não sabe o que é uma arma e nem quer aprender. Aprendeu a aceitar ser um merda e vive pensando ser um Rei, mas que de tanta vaidade não enxerga a cara da derrota no detalhe do espelho. Não vê porque não quer, não ouve porque espera que alguém ligue e não fala porque... ninguém liga.


Fumaça na Neve

Imagino os dias quentes e carnavalescos
E as úmidas noites francesas
Percebo um suave sorriso em sua boca
E desejo seu brilho molhado

Imagino nossa casa mal arrumada
A carteira esquecida na sala
E a gente atrasando outra festa
Pois nunca resisto ao seu brilho

Imagino a caixa de correio
E o cheiro de piscina no ar
Que te atrapalha a focar na carta
Que ainda não acabou de ler

Imagino a minha reação ao te ver
Percebo em mim uma sensação conhecida
Pois toda vez que te vejo
Ela bate bem forte no peito

É que basta olhar pro futuro
Pra imaginar aquele nosso mundo
Tão imperfeito como a noite dos sonhos
E tão perfeito como o calor úmido dos nossos corpos em contato

Imagino, por fim
Sua pele de neve macia
O seu toque
Sua magia
Que me traz o tesão pela vida
No calor que o atrito provoca
Toda vez que seu corpo me toca

5 de fevereiro de 2016

Vício

O dia começa e já me vejo lá
O sorriso bobo me entrega
Quando um simples bom dia
Dá sentido ao que quer que eu faça

Na tarde branca eu a toco de longe
Me equlibrando em passos curtos
Não ouso correr nem parar
Pois é certo que ela me aguarda

A noite chega escondendo a luz
Mas ela sempre veste um perfume claro
Que meus lábios lêem alucinados
Tão mísicos são seus sinais

Ao fim da noite e da dose quente
Como um viciado feliz
Acelero até meu aconchego
Só pra sonhar o dia seguinte
Como se já não fosse um sonho
Amar alguém assim



7 de janeiro de 2016

Antes de dormir

Por Jefferson Veloso.




O amanhã é o verdadeiro sonho
De ir além do que já quero
Esperando uma luz que suponho
Ver dos olhos de quem talvez
nem espero
Mas que de um riso sincero
Me faça realmente enxergar
O que a vida me reserva
A muito tempo

Antes de dormir
Prometo sempre não ter preguiça
E mesmo que de pirraça
Ela venha a acontecer
Que me sirva de lição
Já se foi mais um dia

Ah! Quem me dera ideias surgissem como palavras
Que mesmo sem nexo ou outra fazem algum sentido
Pelo simples fato de aparecer em um verso simplório
De frases e fases de uma vida sem título

Dormir cedo para acordar mais cedo
Ou pra ter mais tempo de Sol.


10 de dezembro de 2015

Bença, vó

Por Jéfferson Veloso.



Era um garoto. Moleque. Mais uma criança. Filho de dois perdidos por aí, no mundo. Cresceu forte, à base de alimento e suor da família, no decorrer do tempo que passava em seu dia a dia.
Mãe trabalhadeira, mulher forte, mais uma guerreira.
Pai motorista, subindo e descendo serras e ladeiras, na boleia dos caminhões de todo tipo de dono.
Todo santo Biotônico de cada dia, fazia dar fome àquele menino, que comia e que crescia. Fez nascer no sangue das veias, um pulsar ativo, de mais uma criança que  só queria brincar de bola de gude, bola de meia.
Bendito líquido preto, amargo e forte, sua avó quem apresentara. Droga lícita, desde a infância consumida, hoje pra ele, se torna necessária. Pois o faz lembrar de alguém da família, vovó Aparecida, que para explicar a falta que sentia, faltam-lhe poucas e boas palavras.
Vovó Aparecida. Indiazinha criada na roça. Sem muitas noções de vida, com seu sorriso sempre trazia uma boa prosa, “quentand’no Sol’iôtrodia”. Antes pegar o sol que já nascia n’outro dia, vovó Aparecida assistia Teletubbies enquanto a água do café esquentava. Era pão de queijo, bolo, pão de sal e margarina que ela, com muito amor envolvido, preparava, por ter o prazer de ter acordado mais um dia.
O garoto não sabia o porquê, mas em sua cabeça vez ou outra criava a vontade de perguntar à mãe:
“Posso ir na  vovó Aparecida?”
“Pode, mas quando voltar, “compra” pães.”

E ele lá ia, correndo ou de bicicleta, ver vovó. Porque ela era legal com ele. Porque ela havia deixado um copo cheio de café esfriando pra ele quando chegasse. Porque ela deixava ver desenhos até a hora do almoço sem ter que lavar as vasilhas, pois pra ela, criança não gostava de lavar vasilhas.

E principalmente, porque de felicidade e curiosidade ele ria, de ver uma dona velhinha gargalhando sem vergonha de mostrar a falta de dentes, e ele com vergonha porque estava de janelinha. Era uma amizade livre e segura, que sabugos de milho por ventura, que por sua avó lhes foram entregues, para virar nas mãos do garoto, uma grande historinha de aventura. Era ela quem lhe dava tudo que podia, mesmo que para ele, nada precisava para estar em sua companhia.

“Vai no armazém e compra amendoim pro seu vô”. Vovó sempre pedia.
“Oba! Vou comer amendoim com o vovô”. O garoto respondia.

Ele só queria saber de vê-la todo dia, e depois da escola sempre corria para os braços da vovozinha. Sua capacidade de apreciar os simples, seu afeto por coisas pequenas, fazia valer à pena o passar dos tempos em sua casa. E na vovó, ia e voltava, pois seja a hora que fosse o dia, parecia que, sempre, ela já o esperava.

 Bom, vovó, o garoto continua crescendo. Continua parecendo criança que acabou de aprender a ler e escrever. Hoje ele joga palavras ao vento de um vendaval de histórias, para uma estrela que hoje brilha no céu.
A falta de uma avó, que hoje lhe vem na memória as rugas de uma senhorinha banguelinha e sorridente. que acompanhava e ajudara a criar o crescer de mais um bom menino, mais um de seus netinhos, que hoje é mais um dos que de ti, sentem saudade.


Faz tempo que ela deixou esse mundo. E só criança tem a completa certeza de que a vovó quando morre, sempre vai pro céu. Hoje a criança que habita em mim surgiu para fazer o garoto acreditar que por aí, em algum lugar, vovó ainda olha por ele. E por todos que ela amava.

Estrelas são avós.

27 de novembro de 2015

O Véu



Ela estava deitada sobre a relva molhada, amarelada por um pálido e frio amanhecer. Seu corpo estava repleto de gotículas de orvalho, que lhe faziam cócegas na medida em que se espreguiçava... vagarosamente.

Seus dedos dos pés tocaram em florezinhas roxas, que ela sabia estarem ali esperando pela luz do sol para se abrirem. Sorriu. Também ela estava à espera do sol para florir.

Sentou-se num movimento quase em câmera lenta e olhou ao redor, recebendo no rosto o cheiro de um novo dia. Tudo o que via era a imensidão da natureza. O vale florido, as árvores frondosas e a floresta que se erguia escura a alguns pés de distância. Sempre se aproximou da entrada da floresta, decidida a, "dessa vez", aventurar-se por entre suas árvores longas e retorcidas, mas nunca levou a cabo suas intenções.

Naquele momento, entretanto, viu seu pés tocarem os galhos retorcidos da primeira árvore, depois da segunda, terceira, e muitas outras. A luz que iluminava seus cabelos acinzentados fora substituída por uma escuridão quase completa, recortada por alguns finos feixes de luz que conseguiam escapar pelo túnel de galhos retorcidos que se estendiam em direção ao céu.

Ela andou por um tempo que não soube definir, percebendo que não saberia mais encontrar a saída. Entretanto, aquilo não lhe era um problema. Respirava o ar frio da floresta como quem pela primeira vez inspira ar puro e verdadeiro. Sentia como se estivesse de volta ao lar, mesmo que nunca houvesse colocado os pés ali anteriormente.

Crack!, um galho seco se partiu com ruído, assustando-a mais que o normal. Ela olhou para o chão, abaixando-se devagar e notando não se tratar de um galho, mas de uma espécie de varinha, tão retorcida quando as árvores ao redor. Nunca fora de crer em contos de fadas, por mais propícios fossem a estas histórias os locais por onde crescera. Vales verdes e cheios de animaizinhos pequenos e exóticos, castelos e casas circulares, florestas negras e ameaçadoras. Eram tantas as histórias que ouvia desde criança que aos poucos elas, ao invés de se tornarem mágicas, foram ficando maçantes e sem graça.

Pegou delicadamente as duas partes quebradas da varinha e, mesmo sabendo que era de uma tolice infantil, encaixou-as, fazendo com que a varinha se tornasse una de novo.

Um líquido prateado escorreu pela emenda da varinha e a envolveu como um véu de seda. Ela não conseguia soltar o objeto, fosse por tamanho espanto ou por alguma coisa oculta que a fazia continuar segurando-a. O líquido escorreu para as suas mãos e aos poucos envolveu todo o seu corpo, com uma cócega fria e formigante.

Envolvida numa espécie de bolha, ela se sentiu sugada para dentro do sonho que tivera naquela madrugada. Uma mistura de vozes sussurrantes, mãos sem dono e uma canção infantil que a faziam se sentir muito bem. Seus pés já não mais tocavam o chão e ela era guiada pelas mãos indefinidas em direção ao desconhecido; uma rainha louvada por súditos fiéis.

O frio e o formigamento sessaram. Ela abriu os olhos e notou que segurava apenas a parte inferior da varinha. Olhou no chão ao redor, procurando a parte faltante, mas não conseguiu encontrá-la. Não havia vestígios do líquido prateado que a havia envolvido, nem mesmo a varinha agora parecia mais do que um mero galho partido. Resolveu guardá-la, contudo, como uma espécie de troféu de sua primeira andança pelas florestas.
Imagem: http://www.culturamix.com/beleza/mulheres/musa-da-floresta

Olhando para frente, notou que as árvores agora se abriam para um caminho relativamente largo e iluminado por uma cor azulada. Quase na linha do horizonte, ela avistava o pequeno castelo onde morava.

Recomeçou a andar, com os olhos fixos no castelo, mas deixando o pensamento naquele lugar que ela, pela primeira vez, considerava mágico. Pretendia buscá-lo depois.



Por Bia de SouZa

21 de novembro de 2015

Licença Poética

Por Jefferson Veloso

Se é pra falar de amor
Poeta escreve o que sabe
Em versos de noite fria
Com um calor que o afague
Ou na falta dele quem sabe

De amor o vento é que sabe
Passa por ali
Redemunhea-se acolá
Só o vento sabe sentir
E quem sente
Quem sabe-se lá?

Falar de amor é desculpa
Um pedido de licença num coração próximo
É onde talvez passe o vento
Pra esbarrar contigo na esquina
do desdobrar da rua em seguida
Um pedido de desculpas
Seguido do olhar
De duas crianças bobas
Que não vão se lembrar
Nem mesmo o nome
Ou que roupa vestia
Mas se lembrarão
"Trombei contigo outro dia."

E por aí o amor toma conta
De um acaso qualquer
De dois desatentos
Um motivo sequer
É saber que o vento
Nasce de dois desatentos
De um acaso qualquer
E por aí o amor toma conta...


7 de novembro de 2015

O Adolescente Suicida




Após o sopro inicial do nascimento, a alma do homem segue um fluxo contínuo em direção ao seu reencontro com o nada. Nesse caso, o conceito de tempo seria traduzido nas marcas genéticas que afloram durante o amadurecimento do fruto homem somadas com as lapidações e cicatrizes adquiridas através da relação com o ambiente. O corpo é o veículo que dita a estética e suas transformações para a interação da alma com o mundo físico, assim como as peças de um computador que capturam estímulos externos para que os softwares possam trabalhar e então reproduzir o conteúdo na tela. A relação entre corpo e alma, dentre outras coisas, também exerce gravidade, quando passa a modificar o ambiente e as outras vidas ao seu redor, ao mesmo tempo em que é influenciado de forma direta e indireta por todo o ecossistema.
A inconsciência do animal humano sobre suas características existenciais básicas e sua influencia no meio externo, que em sua maioria envolve outros universos particulares também inconscientes, muitas vezes acarreta na dificuldade de interação e cooperação entre as pessoas em seus diversos grupos sociais, como nos ciclos de amizades ou na família, o que também vale para povos, nações e também pra humanidade como um todo. O homem é essencialmente diferente dos outros animais justamente pelas suas capacidades altamente avançadas de autoavaliação, comunicação, organização, inteligência, etc. Em outras palavras, o que difere o ser humano das outras formas de vida é a sua consciência – altamente ligada à moral - que funciona como um espelho que o faz olhar pra si mesmo, provocando a reflexão. Quando deixa de se autoavaliar e não toma as rédeas da sua interação com o meio, ele está sendo inconsequente com seu próprio futuro, passando a assumir os altos riscos de imprevistos negativos. Um forte empecilho evolutivo é que o homem mal saiu da sua fase de criança, onde tudo é fantasia e não tem responsabilidade sobre seus erros, e está no meio do processo de se descobrir pensador e capaz de grandes transformações positivas no ambiente, que facilitariam a incessável busca da preservação não só da espécie, mas da vida inteligente, até então única no universo, o que faz dele próprio a coisa mais valiosa existente, juntamente com tudo o que já criou entre tecnologia, conhecimento, arte, valores e etc. Enquanto amadurece, o homem se dá ao luxo de errar incansavelmente para que, com sorte, aprenda a se medicar.
Ao longo da história, devido à sua inconsciência natural, o homem adolescente foi inconsequente, como era de se esperar. Ao mesmo tempo em que produzia avanços inimagináveis a ponto de não se limitar em pisar apenas na superfície de seu planeta natal, produziu também uma série de relações altamente danosas à preservação da espécie e do ambiente em que habita, como a destruição de boa parte dos seus recursos naturais básicos e a precarização da condição da maioria dos indivíduos da espécie. O homem, além de não conhecer seu lado racional e transformador, também desconhece o seu lado animal e destruidor, lado qual que se beneficiou do potencial inteligente e estratégico do homem adolescente para aumentar sua eficiência autodestrutiva.
A luta do homem é, então, contra sua própria natureza, que o desafia a amadurecer mesmo que contra a própria vontade, com o propósito de preservar o que o universo demorou alguns bilhões de anos para lapidar, conscientemente ou não. A luta do homem é espiritual, física e mental. É uma luta contra o espelho, contra o ego e, claro, contra seu inconsciente ignorante, que é naturalmente adverso ao conhecimento em todas as suas formas. Sendo assim, os demônios que o homem tem que encarar são bem mais fortes do que os seres malignos que já imaginou: eles são reais, mas são invisíveis e estão cheios de boas intenções. São demônios individuais, mas que podem nos levar ao suicídio coletivo, fazendo com que, prematuramente, o universo adiante seu reencontro com o nada. Um universo vivo, talvez, mas inconsciente de sua própria beleza.